Mais uma leitura longamente adiada, agora finalmente em curso devido à adaptação do livro a série por Ryan Murphy (realizador de American Horror Story, Feud, etc.)
The Shards estreou no início de agosto no canal de streaming da Disney. A série é uma adaptação, ênfase na palavra adaptação, do livro Estilhaços, de Bret Easton Ellis (publicado em 2023). O autor é publicado pelas Edições Asa e a tradução é de Elsa T. S. Vieira.
Prevê-se ainda nos próximos tempos a reedição de Psicopata Americano.
Los Angeles, 1981.

Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
Bret tem 17 anos e está no último ano do liceu, em Buckley College. Contudo, apesar da farda anódina que usa, ele e os amigos demarcam-se inequivocamente, pois formam um círculo restrito de adolescentes, filhos de produtores de cinema famosos, executivos de estúdios, construtores imobiliários. Com os seus carros de luxo, este grupo conjuga beleza, juventude, sensualidade, riqueza e popularidade.
O narrador é um Bret mais velho, que nos conta na primeira pessoa uma série de acontecimentos, com início no outono de 1981. A memória dessa altura, sobre a qual já tinha tentado escrever antes infrutiferamente, é espoletada por volta de 2019, quando Bret, sentado ao volante do seu carro, acompanhado pelo seu companheiro desde há 9 anos, avista ao longe uma velha amiga.

É um romance que se estende por mais de 600 páginas, em letra miúda, cuja voz narrativa, não obstante algumas ligeiras repetições e recorrências, que parecem contribuir para nos deixar sobretudo em suspense, nos agarra logo nas primeiras frases e dificilmente nos larga. A tradução, límpida, de Elsa T. S. Vieira também contribui fortemente para essa leitura fluída.
O pano de fundo do cenário vívido e nostálgico de Los Angeles, com abundantes referências musicas e fílmicas por parte do narrador, que tem uma memória vívida (e por isso relativamente dúbia) das músicas que tocavam por onde vai passando, é enriquecido pela fusão de factos e ficção, e complexificado pelo modo como o narrador lança luz (compete ao leitor acreditar ou não nessa sua autoanálise) sobre as suas próprias obras – pois, em várias passagens, conta-nos como já então lutava com a sua máquina de escrever a braços com rascunhos de algumas das suas obras de referência, como é o caso de Menos Que Zero. Em alguns momentos do livro, o narrador afirma aliás que consultou o seu diário dessa época para confirmar algumas informações, inclusivamente as músicas que então tocavam em determinado cenário.
Talvez por isso mesmo, por ser conhecido entre os amigos como um exagerado, pois afinal acalenta o desejo de ser escritor – e será entretanto convidado para escrever guiões pelo pai da namorada que, aliás, está constantemente a tentar seduzi-lo –, ou talvez por uma intuição própria de escritor, Bret desconfia instintivamente do aluno recém-chegado a Buckley College… Robert Mallory é atraente, carismático, mas deveria ser claro desde o início para todos que esconde um segredo, pois é um perfeito ator, um mentiroso. Contudo, a repulsa que Bret sente por Robert é temperada por uma obsessão erótica. Note-se que Bret tem uma namorada, Debbie, mas desenvolve entretanto uma série de ligações, mais sexuais que amorosas, com alguns dos rapazes do círculo em que se move, ou mais próximos. A homossexualidade, então, ainda é vivida em segredo.

É também nesse ano que se começam a espalhar notícias, muitas vezes censuradas, dado o horror da realidade, do Arrastão, um assassino em série (de entre uma série de assassinos em série que então agiam quase impunemente, enquanto a ciência criminal não evoluía), que visa sobretudo jovens mulheres e as deixa “alteradas” e “reestruturadas”…
Bret Easton Ellis (Los Angeles, 1964), romancista norte-americano, é o aclamado autor de romances como Menos Que Zero, As Regras da Atração, Psicopata Americano, Glamorama, Lunar Park e Quartos Imperiais, que lhe granjearam uma legião de fãs, e o estatuto de autor de culto e de um dos mais icónicos porta-vozes da Geração X.
Branco é a sua primeira obra de não-ficção. Os seus livros estão traduzidos em 30 línguas.
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