Um segundo caso de morte nas urgências em Portimão stá a levantar novas preocupações sobre o funcionamento de uma unidade hospitalar do Algarve. O doente terá permanecido cerca de 24 horas sem ser observado por um médico, apesar dos alertas feitos pela equipa de enfermagem, acabando por sofrer uma paragem cardiorrespiratória.
O caso ocorreu no Hospital de Portimão, a 7 de outubro, e foi divulgado esta sexta-feira, 6 de novembro, pelo Expresso e pela SIC. A situação surge depois de ter sido conhecida a morte de um homem de 87 anos, que terá esperado cerca de 12 horas nas urgências sem receber atendimento médico.
Segundo a informação divulgada, os enfermeiros denunciam problemas graves no funcionamento do serviço, incluindo falta de chefia, ausência de coordenação e recusas de observação clínica por parte de médicos escalados. A equipa apresentou um pedido de escusa de responsabilidade perante as condições existentes.
Doente regressou às urgências depois de ter sido observado em Faro
O segundo caso conhecido diz respeito a um doente que regressou ao Hospital de Portimão ao início da tarde, depois de ter sido observado pela especialidade de Urologia, em Faro.
O homem apresentava os mesmos sintomas que tinham motivado a sua deslocação às urgências no dia anterior. Perante a situação, os enfermeiros consideraram necessária uma nova avaliação médica, mas, segundo a denúncia, o profissional responsável pelo atendimento recusou observá-lo.
A equipa de enfermagem tentou então encaminhar o caso para a Cirurgia Geral, mas também terá recebido uma resposta negativa. Sem conseguir garantir uma avaliação clínica, os enfermeiros mantiveram o paciente sob vigilância e prestaram-lhe cuidados básicos durante a tarde, a noite e a madrugada.
Enfermeiros alertaram para risco de morte, mas doente acabou por falecer
Na manhã seguinte, perante o agravamento da situação, os profissionais de enfermagem emitiram uma notificação de risco de óbito. Contudo, de acordo com o relato divulgado pelo Expresso e pela SIC, a situação não sofreu alterações.
Sem observação médica e sem um chefe de equipa que pudesse encontrar uma solução, o doente acabou por entrar em paragem cardiorrespiratória.
A morte ocorreu cerca de 24 horas depois da entrada no serviço de urgência, sem que o paciente tivesse sido observado por um médico durante esse período, segundo a denúncia apresentada pelos enfermeiros.
Enfermeiros denunciam falta de chefia e problemas graves no serviço
A situação faz parte de um conjunto de episódios identificados internamente pela equipa de enfermagem, que descreve o funcionamento das urgências médico-cirúrgicas de Portimão como marcado por uma situação de desorganização.
Os profissionais denunciam aquilo que classificam como uma situação de “anarquia funcional”, apontando a ausência sistemática de um chefe de equipa e a falta prolongada do diretor do serviço como fatores que terão contribuído para um vazio de responsabilidades.
Entre os problemas relatados encontram-se ainda dois casos de doentes que permaneceram nas urgências durante mais de duas semanas, alegadamente sem prescrição de medicamentos nem encaminhamento para instituições sociais.
Os enfermeiros referem também uma situação em que a Cirurgia Geral terá recusado operar um paciente transferido do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, apesar de existir indicação para a intervenção.
Diretor das urgências foi exonerado e rejeita responsabilidades
Entretanto, o Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde do Algarve formalizou, na quinta-feira, 5 de novembro, a exoneração de João Coucelo, que desempenhava funções como diretor do serviço de urgência.
Embora a administração rejeite uma ligação entre a decisão e os casos recentemente conhecidos, a exoneração coincidiu com a divulgação da morte do homem de 87 anos que terá esperado 12 horas por atendimento médico.
Num comunicado, João Coucelo rejeitou responsabilidades pela situação e recordou que esteve de licença parental durante os últimos meses. O médico afirmou ainda que, durante o período em que dirigiu o serviço, de aproximadamente um ano e meio, conseguiu reduzir os tempos de espera.
O antigo responsável garantiu também que, desde o início do ano, vinha a transmitir alertas à administração sobre problemas no funcionamento das urgências, sem que tivesse recebido a ajuda necessária. Acrescentou que algumas decisões foram tomadas contra as suas orientações.
Inspeção-Geral das Atividades em Saúde abriu inquérito
A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) já abriu um processo de inquérito relacionado com a primeira morte conhecida publicamente, envolvendo o paciente de 87 anos.
O Ministério da Saúde solicitou esclarecimentos à Unidade Local de Saúde do Algarve sobre os episódios denunciados pelos enfermeiros, mas indicou que pretende aguardar pelos resultados das averiguações.
Segundo o Expresso e a SIC, também foram pedidos esclarecimentos à administração hospitalar sobre as situações relatadas, mas não tinha sido obtida resposta até à divulgação da notícia.
Ordem dos Médicos e Sindicato dos Enfermeiros manifestam preocupação
As denúncias estão igualmente a gerar preocupação entre as organizações representativas dos profissionais de saúde.
Guadalupe Simões, dirigente sindical dos enfermeiros, questionou as alegadas recusas de observação de doentes por parte de médicos contratados para assegurar esse atendimento.
Por sua vez, Carlos Cortes, bastonário da Ordem dos Médicos, manifestou preocupação com o funcionamento das urgências do Hospital de Portimão, recordando que já tinha recebido anteriormente informações sobre dificuldades naquele serviço.
Os casos agora divulgados colocam novamente em destaque as condições de funcionamento das urgências hospitalares no Algarve. As circunstâncias das mortes e as eventuais responsabilidades continuam por esclarecer, estando em curso diligências das entidades competentes.
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