Cientistas, profissionais de saúde, autarcas e comunidades escolares reuniram-se na primeira Conferência “Heróis da Fruta” para discutir respostas à obesidade infantil, num encontro com mais de 500 participantes que assinalou os 15 anos do programa e colocou em debate a promoção de hábitos alimentares saudáveis nas escolas.
Promovida pela Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil (APCOI), a conferência juntou representantes de todos os distritos e regiões autónomas e analisou também os resultados do projeto-piloto “Heróis da Fruta 2.0”, desenvolvido no ano letivo de 2025/2026 na freguesia da Ajuda.

A apresentação de novos dados recolhidos pelo Instituto de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa esteve no centro da discussão, que abordou a necessidade de intervenções baseadas em evidência, as desigualdades socioeconómicas e o impacto financeiro da obesidade no Serviço Nacional de Saúde.
De acordo com os dados apresentados no encontro, uma em cada três crianças vive com excesso de peso ou obesidade e cerca de 70% não consome hortofrutícolas diariamente. O programa “Heróis da Fruta”, criado em 2011, já envolveu cerca de um milhão de crianças em Portugal.
Estudo aponta aumento do consumo regular de fruta
Na abertura, o presidente da APCOI, Mário Silva, apresentou uma abordagem assente nos “Três Zeros da Obesidade: Zero Culpa, Zero Pressão e Zero Estigma”, defendendo que a obesidade deve ser encarada como uma doença crónica multifatorial influenciada pelos ambientes em que as crianças vivem.
“O objetivo da APCOI com o projeto Heróis da Fruta é tornar a ingestão diária de hortofrutícolas a opção mais fácil, económica e apelativa nas escolas, através de uma metodologia lúdica de apenas 5 a 15 minutos diários baseada em Replicar, Repetir e Recompensar”, afirmou Mário Silva.
Raquel Martins, nutricionista e investigadora no Instituto de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, apresentou resultados que apontam para um aumento significativo do consumo diário de fruta na escola.
Segundo a investigadora, 40% das crianças adquiriram o hábito regular de consumo na quarta semana, resultado que permitiu reduzir a duração da intervenção de 12 para cinco semanas.
“As crianças de famílias em maior vulnerabilidade socioeconómica (escalões A e B) foram as que responderam mais positivamente, atingindo 64% de consumo regular de fruta no final do estudo”, afirmou.
Carla Teodoro, educadora do 1.º ciclo e responsável por mais de 200 participantes no projeto desde 2012, destacou a integração da iniciativa na rotina escolar. “Inscrever os meus alunos nos Heróis da Fruta já não é uma opção, é uma tarefa da preparação do ano letivo. O projeto incentiva o elogio mútuo e a partilha: se um aluno não traz fruta, outro partilha a sua só para o colega poder pintar a estrelinha no passaporte”.

Já Ana Duarte, nutricionista e fundadora da “Mão na Nutrição”, salientou a componente emocional da intervenção. “Há uma magia única que as personagens transmitem. As crianças envolvem-se de tal forma que levam estas aprendizagens e escolhas de lanches coloridos para a vida”.
Elsa Lemos, mãe e porta-voz do Conselho de Pacientes da APCOI, defendeu uma abordagem sem estigma. “Eu vivo com obesidade, e friso isto porque eu não sou a minha doença; não resumo a minha essência a um número na balança. As palavras marcam e pesam. O grande mérito dos Heróis da Fruta é ser um projeto universal para todas as crianças, sem segregação nem julgamento”.
Projeto-piloto alcançou 90% das escolas da Ajuda
O segundo painel foi dedicado ao projeto “Heróis da Fruta 2.0”, desenvolvido na freguesia da Ajuda no âmbito da iniciativa Cities for Better Health, numa parceria entre a Novo Nordisk, APCOI, Instituto de Saúde Ambiental e Junta de Freguesia da Ajuda.
Raquel Martins revelou que a entrega semanal de cabazes de fruta e o apoio à recolha de dados permitiram alcançar uma adesão de 90% das escolas da freguesia e levaram 87% das crianças participantes a experimentar novos hortofrutícolas.
Helena Novais, diretora de Public Affairs da Novo Nordisk Portugal, defendeu a importância de atuar precocemente na prevenção. “Para derrotar as doenças crónicas, temos de agir muito mais cedo na prevenção. Definimos quatro pilares para parcerias com impacto: conhecimento da realidade local, confiança, complementaridade e um compromisso rigoroso com a avaliação dos resultados”.
O presidente da Junta de Freguesia da Ajuda, Jorge Marques, anunciou a continuidade do projeto no ano letivo de 2026/2027, com cofinanciamento e apoio logístico da autarquia.
Carla Sónia, chefe de divisão na Câmara Municipal de Lisboa, defendeu uma maior articulação entre os recursos já existentes. “É fundamental alinhar os recursos das autarquias, como a fruta escolar prevista nos cadernos de encargos, com a capacidade de dinamização da APCOI”.
Jo Jewell, responsável da Cities for Better Health, colocou o desafio de ampliar a experiência. “Como podemos passar deste piloto para a adoção desta abordagem em todas as escolas da cidade?”.
Especialistas alertam para custos da obesidade no SNS
No painel dedicado à saúde pública, Maria João Gregório, diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral da Saúde, defendeu a articulação entre instituições públicas e sociedade civil.
A responsável afirmou que “o projeto Heróis da Fruta cumpre todos os critérios pedagógicos nacionais para ensinar a comer com continuidade, independência e rigoroso alinhamento com as diretrizes da DGS”.
José Silva Nunes, endocrinologista e presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, estimou em 1,15 mil milhões de euros anuais o impacto financeiro da obesidade no Serviço Nacional de Saúde.

“Apenas 1% desse montante é aplicado no tratamento direto da obesidade, enquanto 99% são absorvidos pelas complicações. A obesidade é uma doença crónica por si só e precisa de ser tratada a montante antes do surgimento das complicações”, afirmou.
José Camolas, nutricionista e professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, chamou a atenção para a necessidade de associar a oferta de alimentos a estratégias pedagógicas. “Disponibilizar fruta gratuita nas escolas sem dinamização pedagógica e incentivo comportamental é simplesmente desperdiçar dinheiro”.
Santi Gómez, diretor executivo da Gasol Foundation, apresentou a experiência espanhola e referiu a criação de um plano estratégico nacional envolvendo 18 ministérios e 200 medidas estruturais.
A conferência terminou com um apelo ao reforço da cooperação entre ciência, escolas, autarquias e comunidades, defendendo a extensão de intervenções de prevenção e literacia alimentar a mais municípios do país.
Leia também: Tavira está de luto pela morte de Jorge Faleiro
















