Uma criança que frequenta o segundo ano de escolaridade tornou-se uma das vozes de uma manifestação pelo direito à habitação, ao explicar por que motivo a mãe nem sempre lhe pode comprar aquilo que pede. Apesar da idade, o menino já percebe que o dinheiro disponível tem de ser utilizado prioritariamente para pagar a renda, evitando que a família fique sem casa.
O testemunho foi recolhido pela SIC Notícias, na última terça-feira, 27 de outubro, durante uma manifestação junto à Assembleia da República, em Lisboa. A mãe, identificada como Soraia, participou no protesto acompanhada pelos dois filhos e revelou que paga 800 euros mensais de renda, apesar de receber um salário de apenas 460 euros por trabalhar a tempo parcial.
Criança já compreende as dificuldades financeiras da família
Questionado pelo jornalista, o filho mais velho de Soraia demonstrou compreender as dificuldades que a família enfrenta para assegurar as despesas da habitação. “Entendo que a renda é muito cara e que a mãe precisa do dinheiro para não ficarmos na rua”, afirmou a criança, numa resposta que ilustra como os problemas financeiros dos adultos também são sentidos pelos mais novos.
A mãe encontrava-se na manifestação com um cartaz onde expressava o desejo de poder aceitar mais vezes os pedidos dos filhos quando vão ao supermercado. Na mensagem, explicava que gostaria de deixar de ter de lhes dizer que o dinheiro destinado a determinadas compras é necessário para pagar a renda. Uma situação que, segundo contou, faz parte do quotidiano familiar.
Mãe recebe 460 euros e paga 800 euros de renda
Durante a entrevista, o jornalista da SIC Notícias perguntou a Soraia quanto pagava mensalmente pela habitação. A resposta foi de 800 euros, um valor superior ao salário de 460 euros que recebe pelo trabalho a tempo parcial. A manifestante esclareceu que a família consegue enfrentar as despesas com a ajuda de familiares, que também contribuem para o pagamento das contas.
Além deste apoio, Soraia conta com o rendimento do companheiro, que, segundo explicou, trabalha quase 12 horas por dia. O dinheiro que este recebe é utilizado para assegurar despesas essenciais, nomeadamente as compras de supermercado. Apesar dos rendimentos do agregado e do apoio familiar, a manifestante descreveu uma situação em que é necessário gerir cuidadosamente os gastos.
Responsabilidades familiares dificultam aumento do horário de trabalho
A mãe de duas crianças explicou também que já tentou aumentar o número de horas de trabalho para melhorar o rendimento mensal. Contudo, a passagem para um horário de oito horas implicava aceitar um horário fixo, condição que, segundo relatou, não se ajustava às suas necessidades familiares e acabou por inviabilizar a alteração pretendida.
A situação tem consequências no dia a dia dos filhos. Soraia contou que o mais velho, que frequenta o segundo ano, já compreende os motivos pelos quais recebe respostas negativas a determinados pedidos.
Milhares de pessoas manifestaram-se junto ao Parlamento
O relato foi partilhado durante uma concentração que reuniu milhares de pessoas na Rua de São Bento, junto à Assembleia da República. De acordo com a agência Lusa, os manifestantes começaram a chegar ainda antes das 18:30 h, hora marcada para o início do protesto, levando a Polícia de Segurança Pública a interromper a circulação automóvel naquela zona de Lisboa.
A iniciativa foi organizada pela plataforma Casa Para Viver e pelo movimento responsável pela Acampada de Lisboa, que tinha promovido concentrações anteriores na Praça do Rossio. Entre as principais reivindicações estavam o acesso a habitação a preços comportáveis, a proteção das famílias perante dificuldades no pagamento das rendas e o reforço das políticas públicas destinadas ao setor.
Protesto coincidiu com discussão do Orçamento do Estado
A manifestação aconteceu no mesmo dia em que começou, na Assembleia da República, a discussão na generalidade da proposta de Orçamento do Estado para 2027. Os participantes aproveitaram a ocasião para exigir medidas destinadas a melhorar o acesso à habitação, numa altura em que os elevados preços das casas e das rendas continuam a ser apontados como obstáculos para muitas famílias portuguesas.
Os manifestantes decidiram, já perto do final da noite, não instalar uma nova acampada em frente ao Parlamento, por considerarem que não estavam reunidas as condições de segurança necessárias. O movimento anunciou, contudo, a continuidade das ações de protesto no Rossio. Entre os milhares de participantes esteve Soraia, que procurou dar visibilidade às dificuldades de uma família em que o pagamento da renda condiciona até as pequenas compras pedidas pelos filhos.
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