Um parque de campismo com classificação máxima, centenas de avaliações positivas e uma localização privilegiada no coração da cidade poderia parecer uma oportunidade invulgar para quem procura alojamento. No entanto, o espaço não existe e o número de telefone disponibilizado para contacto pertence, afinal, a um ministro português.
A situação foi detetada no Google Maps, onde um estabelecimento fictício identificado como “Camping Lisboa” apareceu na Praça D. Pedro IV, mais conhecida como Rossio, em Lisboa.
Segundo o ZAP, com base em informações avançadas pela revista Sábado, o falso parque de campismo estava localizado precisamente no espaço onde decorreu uma acampada de manifestantes em defesa do direito à habitação.
Falso parque de campismo tinha cinco estrelas e mais de 250 avaliações
Apesar de não corresponder a um estabelecimento turístico verdadeiro, o alegado parque de campismo conseguiu reunir uma classificação de cinco estrelas na plataforma.
O espaço acumulava mais de 250 avaliações, muitas delas com comentários relacionados com a manifestação pela habitação que decorreu no centro da capital.
Entre as opiniões publicadas encontravam-se referências ao ambiente da acampada, à presença das forças policiais e até sugestões bem-humoradas sobre a possibilidade de passar a noite numa das praças mais conhecidas de Lisboa.
A criação do estabelecimento fictício terá funcionado como uma forma de sátira relacionada com os protestos pela habitação, embora a identidade de quem criou a localização não tenha sido esclarecida.
Número de telefone pertencia ao ministro Paulo Rangel
O aspeto mais polémico da situação estava relacionado com os dados de contacto apresentados na plataforma.
Em vez de um número associado a um estabelecimento turístico, o falso parque de campismo disponibilizava o contacto telefónico privado de Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros.
A exposição do número pessoal levou o gabinete do governante a receber chamadas insistentes de jornalistas e cidadãos, situação que acabou por permitir identificar o problema.
Segundo a informação divulgada, os serviços do ministro só tiveram conhecimento da utilização indevida do contacto depois de começarem a receber essas chamadas.
Gabinete do ministro apresentou participação à PSP
Assim que tomou conhecimento da situação, o gabinete de Paulo Rangel comunicou formalmente a ocorrência à Polícia de Segurança Pública (PSP).
O objetivo da participação foi permitir que as autoridades investigassem a divulgação do contacto privado do governante e as circunstâncias em que o número foi associado ao estabelecimento fictício.
Até ao momento, não foram divulgadas informações sobre a identidade dos responsáveis pela criação da localização no Google Maps ou sobre eventuais consequências legais.
A divulgação de dados pessoais sem autorização levanta questões relacionadas com a privacidade, mesmo quando os visados exercem funções públicas.
Não é a primeira vez que o contacto do ministro aparece na Internet
O episódio agora conhecido não constitui uma situação inédita para Paulo Rangel.
Em 2024, o número de telefone pessoal do ministro dos Negócios Estrangeiros já tinha sido divulgado nas redes sociais, expondo novamente um contacto privado do governante.
Desta vez, a divulgação ocorreu através de uma localização fictícia numa plataforma digital utilizada diariamente por milhões de pessoas para procurar estabelecimentos comerciais, serviços e pontos de interesse.
A associação do contacto a um alegado parque de campismo no Rossio acabou por transformar uma publicação satírica relacionada com os protestos pela habitação numa situação que motivou a intervenção das autoridades.
Protestos pela habitação estiveram na origem do contexto
O aparecimento do “Camping Lisboa” está relacionado com a acampada realizada na Praça D. Pedro IV, onde manifestantes se concentraram para contestar a situação habitacional em Portugal.
A localização escolhida para o falso estabelecimento e os comentários publicados pelos utilizadores faziam referências diretas ao protesto e à possibilidade de acampar no centro da capital.
Contudo, a utilização do número privado de um membro do Governo introduziu uma dimensão diferente no episódio, ultrapassando a simples sátira política.
O caso foi comunicado à PSP, cabendo agora às autoridades apurar as circunstâncias da divulgação dos dados pessoais e determinar se existem responsabilidades a investigar.
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