Conquilhas com aspeto normal, sem cheiro estranho e com o sabor habitual podem, ainda assim, estar contaminadas por biotoxinas marinhas. Ao contrário de alguns sinais de deterioração alimentar, este perigo não pode ser identificado simplesmente através dos sentidos, razão pela qual os alertas de interdição da apanha assumem particular importância.
Segundo a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), os moluscos bivalves podem acumular toxinas produzidas por determinadas microalgas presentes no meio marinho. Entre os problemas associados encontra-se a Intoxicação Diarreica por Marisco, conhecida pela sigla DSP, que pode provocar sintomas gastrointestinais depois do consumo.
Água nem sequer precisa de mudar de cor
A presença destas toxinas pode estar associada aos chamados florescimentos de algas nocivas, por vezes conhecidos como “marés vermelhas”. Apesar do nome, a água pode adquirir tonalidades diferentes, como verde, castanha ou amarela, consoante as circunstâncias.
Contudo, a ausência de qualquer alteração visível na água não significa que os bivalves estejam livres de toxinas. A mesma fonte explica que podem ocorrer acumulações mesmo quando a quantidade de microalgas é demasiado pequena para provocar uma mudança na cor da água.
Conquilhas estão entre os bivalves que podem acumular mais toxina
A DSP tem sido relacionada com microalgas das espécies Dinophysis acuminata e Dinophysis acuta. Estas produzem compostos como o ácido ocadaico e as dinofisistoxinas, responsáveis pelo quadro de intoxicação associado ao consumo dos moluscos contaminados.
Entre os bivalves onde podem ser encontradas concentrações mais elevadas destas toxinas estão precisamente as conquilhas, os mexilhões e os berbigões. Outros exemplares de maior dimensão, como o lingueirão, também podem provocar sintomas quando são consumidos em quantidade suficiente.
Sintomas podem aparecer nas primeiras horas
Diarreia, vómitos, dores epigástricas e abdominais, fraqueza muscular e dores de cabeça estão entre os sintomas descritos. Podem começar nas primeiras horas após a refeição ou surgir até 24 horas depois do consumo do alimento contaminado.
A diarreia pode prolongar-se durante cerca de três dias. Segundo a informação disponibilizada, este tipo específico de intoxicação não provoca a morte, mesmo perante doses elevadas, mas pode originar um episódio agudo de doença gastrointestinal.
Cozinhar as conquilhas não resolve o problema
Há um detalhe particularmente importante para quem pensa que cozinhar bem o marisco elimina qualquer perigo. A fervura não destrói estas biotoxinas, embora possa ser eficaz contra determinadas bactérias eventualmente presentes nos alimentos.
A depuração em água também não consegue removê-las em quantidade suficiente. Isto significa que colocar os bivalves em água antes de os preparar ou prolongar o tempo de cozedura não transforma num produto seguro aquele que tenha sido capturado numa zona sujeita a interdição devido à presença de biotoxinas.
Cheiro, cor e sabor não permitem perceber a contaminação
Também não existe uma verificação simples que o consumidor possa fazer em casa. Os bivalves contaminados por biotoxinas não apresentam necessariamente diferenças de sabor, cheiro ou cor relativamente aos exemplares próprios para consumo, pelo que uma conquilha aparentemente fresca não permite excluir este risco.
Assim, quando existe um alerta de interdição da apanha e comercialização de moluscos bivalves vivos, a recomendação é não apanhar nem consumir exemplares provenientes dessas zonas. No meio natural, os animais vão eliminando as toxinas depois de desaparecerem as microalgas responsáveis, mas esse processo pode levar algum tempo e, em certos casos, prolongar as restrições durante várias semanas.
















