Reescrever O Luar de Sha’bān foi, para Renato Edmundo Santos, um gesto de gratidão pelo romance que lhe deu um novo sentido à vida durante uma doença grave. Treze anos depois, o autor, residente no Algarve desde 1982, regressa à história de Shirin e Ahmad com Sha’bān — Amor ao Luar, numa edição revista e ampliada da Arandis Editora.
Ao POSTAL, o autor recorda a urgência de escrever sem saber se teria tempo para terminar e explica como a aprendizagem do árabe e a pesquisa histórica aprofundaram o seu trabalho.
O regresso ao primeiro romance
Treze anos depois de O Luar de Sha’bān, regressa a esta história com Sha’bān — Amor ao Luar. O que encontrou no texto original que já não correspondia ao escritor que é hoje?
O Luar de Sha’bān foi o meu primeiro romance. Anteriormente tinha apenas escrito um pequeno livro de História: Da Arábia ao Al-Andalus, e um breve conto: O Segredo da Fonte Santa, publicados no âmbito da Associação de Defesa do Ambiente e do Património Cultural de São Brás de Alportel.
Quando iniciei O Luar de Sha’bān não dispunha, portanto, de “ritmo” da escrita de romance, além de que não há (que eu saiba) manuais que os ensinem a redigir, embora haja “armadilhas” que devem ser minimamente conhecidas e a evitar…
Além disso, o romance histórico é sempre difícil de escrever, dadas as próprias características.
No caso vertente, apercebi-me de que só ao fim de três ou quatro capítulos o tal “ritmo” de romance se instalou, bem como teria gostado de ampliar a própria ação. Por isso me ficou um certo “amargo de boca”…

Uma história para contar durante a doença
Contou que a escrita lhe devolveu um propósito numa fase de isolamento. Que parte de si reencontrou quando recuperou aquele manuscrito da gaveta e voltou a ter uma história para contar?
Embora possa não parecer, esta questão prende-se, em parte, com a anterior. De facto, eu tinha o sonho de escrever um romance. E tinha até uma história para contar, precisamente a história de Shirin e de Ahmad, com o seu amor imenso e de uma fidelidade a toda a prova, como dificilmente encontraremos nos dias de hoje…
Por isso comecei a escrever o “Sha’bān”, todavia, nessa altura não possuía disponibilidade “mental” e de tempo para desenvolver a narração. Por isso guardei as páginas já escritas que ficariam a aguardar “melhores dias”.
Deu-se o caso de que adoeci gravemente, com uma doença que me levou ao IPO. O meu médico referiu-me quais as possibilidades de sobreviver, graças a um novo medicamento que aparecera no “mercado”. Se as coisas corressem bem, teria hipótese de durar mais alguns anos (e quais as percentagens expectáveis).
Como estava muito enfraquecido, deixei de poder trabalhar, e os dias eram infinitos. Lidei mal com a situação: de repente senti-me um inútil deambulando entre quatro paredes…
Li então “todos” os livros que havia anos estava para ler; ouvi música; vi televisão, mas a sensação de que já não servia para nada era intolerável. Lá “fora”, a vida continuava sem mim. Ao mesmo tempo, os telefonemas amigos iam rareando… Lembrei-me então que tinha escrito umas quantas páginas do “tal romance” sempre adiado. Procurei na gaveta onde as tinha deixado, e lá estavam elas; nas páginas estavam a Shirin, o Ahmad…
“Mas havia um problema… O ‘tempo’. O ‘meu’ tempo… Que eu não sabia se chegava
para acabar o romance…”
Recobrei o alento! Já não era o inútil Renato Santos! Era uma pessoa que queria contar uma história de amor e fidelidade inquebrantáveis, que talvez conseguisse publicar (se tivesse tempo!) e que talvez alguém se dignasse a ler…
E foi assim que, mesmo muito cansado, escrevi, rasurei, escrevi de novo (à mão, como eu gosto, com as minhas letras e rabiscos) e depois, devagarinho, transcrevia para o computador.
Mas havia um problema… O “tempo”. O “meu” tempo… Que eu não sabia se chegava para acabar o romance…
Por isso, tive de encontrar soluções que não me satisfizeram de todo, mas receava não conseguir acabar, e todo o esforço despendido teria sido em vão (ou quase…).
“Consegui” viver muitos mais anos do que os que na altura pensava viver. Ao cabo de vários meses voltei a trabalhar, a ser útil, na minha profissão de sempre, que tanto almejei e procurei honrar. Pude ver o sorriso prazenteiro do meu médico ilustre, um dos homens mais sapientes que conheci, quando “apresentava” o meu “caso clínico” a colegas, e que “escancaravam” os olhos, quando viam os meus exames iniciais, quase nem acreditando que “eu” era “aquele”…
Mas o “Sha’bān” deu nessa altura um novo sentido à minha vida. Por isso, enquanto os anos passavam e ia escrevendo novas obras, pensava que tinha de prestar-lhe um tributo por tudo o que aquele livro tinha feito por mim. Era uma questão de gratidão…
Impunha-se reescrever e ampliar o texto, de acordo com aquilo que, entretanto, fui aprendendo… E foi o que fiz.
Conhecer uma cultura através da língua
Entretanto, aprendeu a ler e a escrever árabe. Que descoberta, feita através da língua, alterou mais a sua maneira de compreender e recriar o mundo de al-Andalus?
Quando se aprende a ler e a escrever uma língua (mesmo que modestamente, como é o caso), é a própria “alma” do povo que a fala que nos vai sendo revelada. Neste caso, foi o interesse mais profundo pelas “culturas orientais” que nos foram trazidas através do árabe, como, por exemplo, a persa.
Gosto especialmente da poesia árabe do al-Andalus do século XI…
“Quando se aprende a ler e a escrever uma língua (mesmo que modestamente, como é o caso),
é a própria ‘alma’ do povo que a fala que nos vai sendo revelada.”
O conhecimento da escrita permitiu-me transliterar corretamente diversos termos que encontrava diferentemente transliterados consoante os autores, o que me fazia muita “impressão” antes de eu próprio os conseguir ler. Esse facto também me permitiu melhorar os diálogos e até “ensinar” aos meus leitores a oralidade…
A fronteira entre a História e a ficção
No posfácio, esclarece que a sua versão da batalha de Guadalete é inteiramente ficcionada. Como decide até onde pode inventar sem levar o leitor a confundir o romance com a História?
Os meus livros são “ficção” histórica. Por isso, os contextos têm de ser suportados por uma base de acordo com o que se sabe sobre a altura em que a ação se desenrola. No entanto, os personagens ficcionados têm de “contracenar” com os “atores” históricos verdadeiros.
Assim sendo, há sempre margem para o leitor poder pensar que as “coisas” se passaram assim. Por isso, normalmente, no final da obra (tal como nesta), costumo dar informação ao leitor, precisamente desse facto: é ficção!
“Escrever não ficção histórica é totalmente diferente, exigindo todas as fontes
devidamente assinaladas.”
Quanto à batalha de Guadalete, o que é facto é que (pelo menos que eu saiba, e tenho lido bastante sobre isso) não se sabe ao certo como evoluiu, exceto o trágico final para as forças do rei Rodrigo.
No fundo, a ficção histórica “oferece” ao leitor um “cenário” alternativo dessa mesma história…
Escrever não ficção histórica é totalmente diferente, exigindo todas as fontes devidamente assinaladas.
Ahmad apaixona-se por Shirin, a jovem que compra num mercado de escravos. Como construiu uma relação de amor sem apagar a violência e a desigualdade desse ponto de partida?
Construindo a narração da forma que considerei poder minimizar muito o facto de ele a ter adquirido e de ela ter sido vendida. Aí têm um papel fulcral quer a personalidade de Ahmad, quer o grande amigo deste: Omar… E mais não posso dizer…
O Algarve e as histórias por escrever
Vive no Algarve desde 1982 e faz Shirin passar pela antiga Faro. Que ideia feita sobre o passado islâmico da região gostaria que este romance ajudasse a questionar?
Neste romance, o processo de islamização é ainda muito incipiente e a passagem de Shirin não vai além do contacto com o governador iemenita da cidade. No geral, quando as cidades não ofereciam resistência armada, os muçulmanos permitiam aos cristãos (muito mais numerosos) e aos judeus que continuassem a orar pacificamente nos seus templos, pagando o imposto respetivo. Até porque, quer cristãos, quer judeus eram considerados “Povos do Livro” e, portanto, protegidos.
Nesse sentido, gostaria que o leitor se apercebesse de que, no “Algarve” do “Sha’bān” não houve qualquer carnificina…
Depois da apresentação de 31 de outubro, em São Brás de Alportel, que desafio literário ainda sente necessidade de enfrentar para continuar a ser, como diz, um “escritor em construção”?
O desafio de conseguir concluir os dois romances em que estou a trabalhar, fundamentalmente. Como são obras de “ficção histórica”, a pesquisa é contínua, por isso tenho outros escritos em “baú” que penso também poderão ser um bom contributo para essa tal “construção”.

Renato Edmundo Santos: um percurso literário entre o Algarve e al-Andalus
Radicado no Algarve desde 1982, Renato Edmundo Santos tem na história universal, na arqueologia e na antropologia algumas das suas principais áreas de interesse. Natural de Lisboa e médico de profissão, dedica parte substancial do seu tempo à leitura e à escrita, num percurso literário em que a sociedade de al-Andalus ocupa um lugar recorrente.
A sua bibliografia inclui Da Arábia ao Al-Andalus e O Segredo da Fonte Santa, obras que antecederam o seu primeiro romance, O Luar de Sha’bān. É a esta narrativa que regressa agora com Sha’bān — Amor ao Luar, numa edição revista e ampliada publicada pela Arandis Editora.
Do conjunto de obras publicadas fazem também parte D. Dinis e o Segredo do Templário, Henrique o Navegador e os Aventureiros de Al-Ushbûna, Ibéria — As Sombras de Conistorgis, O Filho de Al-Hakam, Perfumes do Al-Andalus e O Livro de Aben ’Ammār. Os sete títulos a partir de O Luar de Sha’bān foram editados pela Arandis.
Um romance entre o amor e a guerra
Em Sha’bān — Amor ao Luar, a ação situa-se no início do século VIII, no contexto da expansão do Império Omíada. A narrativa acompanha Shirin, uma princesa persa raptada e vendida como escrava, e Ahmad al-Qasri, emir dos exércitos do califa al-Walīd I, cujos destinos se cruzam num cenário de guerra e devastação.
A relação entre os protagonistas desenvolve-se entre o amor, o sacrifício e a fidelidade. A estes temas juntam-se os mistérios associados a Gadir, o Eremita, ao segredo das “Grandes Pedras” e ao “Monte da Lua”, num enredo que articula história, religião e mitologia.
O Museu do Traje, em São Brás de Alportel, foi o local escolhido para a apresentação do livro, marcada para 31 de outubro. A nova edição retoma uma história que o autor quis aprofundar à luz da experiência de escrita e dos conhecimentos adquiridos desde a publicação original.
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