Os protestos pela habitação e contra o custo de vida na Europa, incluindo em Portugal, dão esperança a Roger Waters, que vê nas mobilizações uma contestação às elites no poder. “A Europa está a arder”, afirmou o fundador dos Pink Floyd numa entrevista conjunta à Lusa com a artista palestiniana Mona Miari.
Os dois músicos falaram à margem do Escritaria, festival literário de Penafiel, onde atuam este sábado, 24 de outubro, num concerto de homenagem a Luís Represas. A apresentação inclui a estreia mundial ao vivo de uma versão de “Comfortably Numb” reimaginada no contexto da luta palestiniana.
Waters compara mobilização europeia ao Maio de 68
“Isto [os protestos] é a insurreição de que falávamos, de que nos sentimos parte”, declarou Roger Waters, estabelecendo uma comparação com o Maio de 68.
O músico defendeu que o planeta tem capacidade para garantir habitação a todos e criticou a prioridade dada aos interesses económicos. “Todos aqueles direitos inalienáveis que foram tão falados quando da fundação das Nações Unidas… Hoje, nada tem a ver com nada a não ser o lucro”, afirmou.
Mona Miari classificou os movimentos pela habitação, como os que decorrem no Porto e em Lisboa, como “empoderadores e muito importantes”.
“Dá-me muita esperança, e leva-me a acreditar que não estamos dormentes. Estamos a responder a isto, a dizer ‘não, não queremos viver assim’”, afirmou, defendendo que a mobilização deve continuar para produzir mudanças.
Para a artista, que vive em Nova Iorque e tem os pais no país natal, as diferentes causas estão ligadas por uma mesma exigência de dignidade.
“A luta pela liberdade é uma luta universal, independentemente da nacionalidade, etnia ou religião. Estamos a continuar esta batalha de libertação completa de todos os humanos”, sustentou, referindo a Palestina, Timor-Leste, o Sudão e o Congo.
Da defesa de uma casa à contestação da exploração de recursos
Recordando “Home”, canção que escreveu em 1987, Waters salientou que “todos têm algum lugar a que chamam casa” e associou a defesa desse lugar tanto à luta pela habitação como à solidariedade com povos oprimidos.
“Estamos a olhar para um mundo renascido em que se exige que não haja mais escravos ou senhores”, declarou.
O músico criticou também as elites que, na sua perspetiva, procuram apropriar-se de recursos naturais sem atender às populações: “Querem roubar o lítio ou o cobre ou o níquel ou o que for, e não querem saber de ninguém”. A Lusa relaciona esta contestação com manifestações em Portugal sobre Covas do Barroso, em Boticas, no distrito de Vila Real.
Durante a entrevista, Waters expressou ainda apoio à luta antifascista e apelou ao voto em Lula da Silva nas presidenciais brasileiras. Citou os protestos na Albânia e criticou Donald Trump, bem como a atuação das Nações Unidas e do Conselho de Segurança em relação a Gaza.

Mona Miari vê nas redes sociais uma mudança na mobilização
A causa palestiniana atravessou a conversa. Questionada sobre os últimos anos, em particular desde 7 de outubro de 2023, Mona Miari admitiu ter chegado perto de perder a fé na humanidade, mas disse encontrar sinais de mudança na resposta internacional.
A artista apontou os acontecimentos de Sheikh Jarrah, em 2021, e o recurso às redes sociais como momentos importantes para tornar mais visível a realidade palestiniana.
“Toda a gente em Gaza e na Cisjordânia passou a estar em direto, a documentar a ocupação, os ataques, o genocídio”, afirmou. Na sua leitura, essa exposição ajudou a contrariar uma situação em que “o mundo estava confortavelmente adormecido”.
Miari criticou o que considera ser uma máquina de propaganda associada ao sionismo e manifestou esperança no trabalho do ativismo palestiniano. Defendeu a continuidade dos protestos e da criação artística até à libertação e ao fim do que descreve como genocídio, reclamando um “verdadeiro cessar-fogo, não só no papel ou nos jornais”.
Waters defende um Estado democrático unificado
Roger Waters colocou “uma Palestina livre e democrática” no primeiro lugar das suas prioridades e acusou os governos ocidentais de apoiarem Israel e o que classificou como genocídio.
O músico defendeu a substituição do Estado de Israel por um Estado democrático unificado, entre o rio Jordão e o mar, no qual todos sejam iguais.
“O Estado de Israel tem de deixar de existir”, afirmou, associando essa posição à criação de uma organização política comum e à rejeição do sistema que descreveu como assente no capitalismo neoliberal e na hegemonia ocidental.
Para Waters, está em causa “uma batalha existencial pelo futuro da espécie humana”, que exige uma mudança na relação entre poder, recursos e direitos.
“Comfortably Numb” ganha nova leitura em Penafiel
Mona Miari escreveu, compôs e interpretou com Waters a nova versão de “Comfortably Numb”, procurando dar expressão à luta palestiniana. A artista descreveu a criação como “tão genuína e direta como os pensamentos”, capaz de transmitir também a vontade de continuar a viver, amar e encontrar felicidade nas coisas simples.
Durante algum tempo, deixou de cantar e criar, por considerar impossível fazê-lo “durante um genocídio”. O encontro com Waters permitiu transformar essa sensação de dor e impotência numa “troca entre vozes”.
“Escrever a canção foi como uma correspondência entre duas pessoas”, explicou o músico britânico. O objetivo, acrescentou, é que a obra toque o público “no coração, e na sua imaginação”.
O concerto integra uma edição do Escritaria que coloca Timor-Leste em destaque através de Luís Cardoso, autor homenageado, e inclui a homenagem ao legado musical de Luís Represas, para a qual Miari convidou Waters.
“Mona e eu temos falado sobre isto, porque — quem sabe? —, há esta possibilidade de o mundo renascer. Um mundo renascido, onde a empatia prevalece, e não a ganância”, concluiu Roger Waters.
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