Cláudia Sofia Sousa, “alfacinha de berço e algarvia de gema”, como a si própria se classifica, tem vivido em Olhão a maior parte da sua vida. O que se passou fora da vila cubista está em “A Morte não é Nada”, um romance autobiográfico com ficção acrescentada que tive o prazer de apresentar naquela cidade no passado dia 29 de Março.
Já em 2016, com “SobreViver”, um notável livro de prosa poética que quase passou despercebido no mundo literário, tinha assomado um talento pouco vulgar em terras algarvias. Sobre ele descrevi nestas páginas a “qualidade que trespassa, com a intensidade de um tsunami”. Faltava-lhe dar o passo seguinte, com outro fôlego, no campo do romance. Houve que esperar quase uma década por ele, mas está dado, e está feito.
É uma história de amor que começa a levantar voo à primeira frase, em 2003, no cenário da Feira de Santa Iria, em Faro, e poucas páginas depois aterra de trambolhão no ano de 2018. É o primeiro abanão cronológico. Outros se sucederão, como nos altos e baixos de uma montanha-russa, mantendo o leitor preso em alta voltagem ao enredo. Assim decorre a historieta tradicional da jovem empregada que cai na rede do patrão mais velho, casado, pai de filhos, mas eterno sedutor, e assim se inicia um amor escondido e clandestino como tantos outros. José (de alcunha “furacão”), é um dinâmico empresário de sucesso no auge do aparecimento dos GPS e outros equipamentos da gama marítima das novas tecnologias.

Antigo parlamentar e diplomata da União Europeia
Cláudia Sofia Sousa é uma mina de talento. Muito, muito talento. Merece ser posto a descoberto
Pensava Glória que aquilo era amor, mas não, era paixão telúrica, disruptiva, tresloucada como são todas as paixões, um carro sem travões até bater no paredão do desencantamento. Os negócios vão de vento em popa, e a novela amorosa também. É física, feita de sexo, beijos e abraços, e é romântica, feita de viagens, hotéis, cidades, restaurantes e paisagens, mistura perfeita de negócios e prazeres. Glória, é uma miúda à descoberta do mundo. Dois anos de amor clandestino depois, começa a brotar o desejo de um amor em liberdade, com orgulho, sem vergonha. Há cansaço e frustração na relação. Até ao dia em que, ao invés de promessas e expectativas para que o amante abandonasse o lar familiar para se acolher nos seus braços, Glória embate de frente na notícia de que a mulher de José está grávida de novo. Choque com sabor a traição! Um murro no céu da boca. A relação fica tocada seriamente. Sobrevive, e passa à segunda fase, a do amor com dor. Glória mantém o emprego na empresa do amante, torna-se obesa, desgosta-se de si mesma. Há um distanciamento fingido, uma vida dupla entre o profissional e a relação amorosa. Até que, em 2008 surge a gravidez de Glória. Maria vem a caminho. Um raio de sol no meio da penumbra, capítulo três nesta história. Saiu da empresa, assume o papel de mãe a tempo inteiro, e José faz, finalmente, vida com ela, debaixo do mesmo tecto.

Tudo parece recomposto sob os auspícios de Maria “milagre”, a filha, até ao próximo embate. Um intervalo que dura pouco, José e Glória separam-se em conflito aberto. Cada qual para seu lado. Daqui até 2015 o livro tem um apagão, no qual pouco mais se sabe. Mãe e filha recolheram-se ao lar familiar de origem, em Olhão. Conquistaram autonomia, seguiram em frente, mãe solteira, filha de pai ausente. Até que, em 2015, vem a parte mais empolgante e admirável do livro, feita de cancro, metástases, morfina, ruína financeira. É o amor ressuscitado, em versão de amor-amigo, amor-cuidador. É o regresso do anel de Nova Iorque ao dedo, o beijo sentido de despedida nos lábios de um moribundo. O adeus dos Amigos que sobraram. A atitude comovente de Maria feita em desenho para o pai levar para a eternidade, nela José viverá para sempre. A parte fúnebre, dispensa-se. Segue-se a mensagem de Henri Cott Holland, cujo título é emprestado a este livro, e a carta imaginária de Glória para José, fechando os capítulos de cada personagem, como quem fecha as portas de um edifício em ruínas. Nem sequer falta um final de doçura num mar de amarguez – a reunificação possível da família em vertente luso-alemã, à volta dos irmãos Maria e Adriano, e de Luna, a neta recém-chegada.
Como romance, tem um final quase feliz, já pouco usual, depois de tanta adversidade, o que o torna algo delicodoce. Acaba em paz, felizes da vida. Enterrado o morto, Maria encontrou família, os antigos sócios descobriram novas felicidades conjugais, e até empresariais, e Glória refez a vida e partiu para outra. Memórias felizes continuam a povoar os seus sonhos. Anos depois de desaparecer trágica e tristemente, falido e vencido pela doença, José volta ao mundo dos vivos para a visitar. Ou Glória revisita-o no hospital, na praia, em todo o lado. De facto, tal como o título do livro indica, “A Morte não é Nada”.

O enredo é uma viagem fascinante de avião por um temporal de emoções, que prende o passageiro [o leitor] ao banco, sem cinto de segurança. Os solavancos podem não ser inéditos, tão pouco imprevisíveis. Se o enredo for elevado a filme de cinema, meia dúzia de figurantes e actores bastam. Orçamento baratinho. Mas o que é notável neste romance é o estilo da autora. A firmeza da prosa, a riqueza literária, a variedade das opções frásicas, a qualidade do entretenimento que a sua leitura proporciona. Tem uma densidade emocional impressionante. Quer-se ler rapidamente o resto, que é quase tudo. Tem o dom de transmitir emoções, o saber enlear e desenlear, a sublime inspiração de uma escrita só ao alcance de poucos autores, a correcção linguística e uma inspiração descritiva que não cansa, antes pelo contrário, provoca no leitor uma ansiedade de descoberta pela esquina que se segue, rumo à praça central de um desfecho que se antecipa.
Cláudia Sofia Sousa é uma mina de talento. Muito, muito talento. Merece ser posto a descoberto. Com “SobreViver”, já tinha nascido uma poetisa. Com “A Morte não é Nada”, deu-se a conhecer uma romancista. Feito o ajuste de contas biográfico da autora consigo mesma, fizeram-se votos naquela assistência de casa cheia, na Biblioteca Municipal de Olhão, para que não tenhamos de esperar outra década pela obra nova que se impõe. À venda em https://oficinadaescrita.com/produto/a-morte-nao-e-nada/
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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