A associação ambientalista Quercus manifestou-se contra a construção da barragem da Foupana, prevista para os concelhos de Alcoutim e Castro Marim, alegando impactos significativos e irreversíveis na biodiversidade, conectividade ecológica, solos, paisagem e património sociocultural.
O projeto, apresentado pela Associação de Regantes do Sotavento Algarvio, encontra-se em consulta pública até 16 de outubro. A Quercus pede à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) que emita uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) desfavorável.
Em alternativa, a associação defende que os fundos públicos sejam canalizados para o aumento da eficiência hídrica, redução das perdas nas redes de abastecimento público e de regadio, reutilização de águas residuais tratadas e apoio a práticas agrícolas adaptadas ao clima mediterrânico e à crescente escassez de água no Algarve.
Quercus alerta para redução dos caudais e aumento da evaporação
A associação questiona também a viabilidade financeira da infraestrutura, argumentando que a diminuição dos caudais na bacia hidrográfica e as projeções climáticas poderão comprometer a quantidade de água armazenada.
De acordo com o comunicado, as projeções apontam para uma redução da precipitação média anual entre 8% e 26%, maior frequência e intensidade das secas e uma subida das temperaturas entre 2°C e 4°C.
Para a Quercus, estas condições poderão provocar elevadas perdas por evaporação e levar a que a barragem fique seca ou abaixo dos níveis necessários ao seu funcionamento, transformando-se num “ativo abandonado”.
A associação relaciona ainda o projeto com o crescimento das culturas subtropicais no Sotavento algarvio, nomeadamente do abacate. Segundo a organização, a produção destes frutos aumentou 96% entre 2013 e 2023 e caracteriza-se por um elevado consumo de água.
A Quercus considera, por isso, que a prioridade deveria passar pela reconversão para culturas mais adaptadas ao clima mediterrânico, em vez da expansão de um modelo de agricultura intensiva com elevada necessidade de recursos hídricos.
Lince-ibérico, peixes e aves entre as preocupações
Entre os impactos ambientais apontados está a sobreposição parcial do projeto à área de distribuição do lince-ibérico, espécie com estatuto de conservação vulnerável. A associação considera que a nova infraestrutura poderá criar barreiras adicionais e aumentar o risco de atropelamento.
A Quercus destaca igualmente que a bacia da ribeira da Foupana constitui “a última grande ribeira livre e sem barreiras artificiais do Algarve” e alerta para alterações no regime de caudais e na migração de 15 espécies piscícolas.
Segundo a associação, a construção da barragem poderá ainda afetar galerias ripícolas, vegetação autóctone e povoamentos de azinheiras e sobreiros, bem como habitats e locais de nidificação utilizados por 95 espécies de aves identificadas naquela área.
O Estudo de Impacte Ambiental prevê medidas de mitigação, mas a Quercus salienta que o próprio documento lhes atribui “Eficácia Moderada”.
Quercus considera projeto incompatível com cenário de seca
“Num cenário de agravamento das alterações climáticas e das tendências de seca prolongada, a construção de mais uma grande barragem é, na verdade, um incentivo perverso à perpetuação de um modelo agrícola insustentável, que poderá hipotecar o último grande corredor ecológico livre do Sotavento Algarvio”, conclui Alexandra Azevedo, presidente da Quercus.
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