Uma concentração de mais de 100 pessoas juntou manifestantes na Praça da Liberdade, em Faro, este domingo, em protesto contra a intervenção policial que dispersou, durante a madrugada, as acampadas pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto. Os participantes criticaram o que consideram uma atuação repressiva das autoridades e manifestaram solidariedade com os ativistas envolvidos nos protestos.
A manifestação, convocada pelo movimento Algarve em Resistência, decorreu em frente à sede da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, a partir das 17:00, reunindo participantes que exibiram cartazes com mensagens como “O Brasil está a votar para manter a democracia, hoje roubaram-nos a nossa” e “Não vais ter casa, não vais ter guita, apenas repressão infinita”.
“A repressão policial em si não foi novidade nem surpresa, porque ela já existiu em momentos anteriores das acampadas. O que é inadmissível foi a polícia vir ainda com mais força, com cães, e de uma forma concertada atacar os manifestantes no Porto e em Lisboa”, declarou à agência Lusa Filipa Alves, durante a concentração pacífica na capital algarvia.
A manifestante reconheceu, contudo, que a adesão a este tipo de iniciativas continua a ser reduzida no Algarve, apesar das dificuldades no acesso à habitação. A mobilização, afirmou, “é muito diferente nesta zona do país, apesar de os problemas com a habitação serem enormes”, considerando que muitas pessoas “estão muito adormecidas ou muito desinteressadas, cada uma no seu canto”.
Assembleia popular antecedeu manifestação junto à CCDR Algarve
Antes do início da concentração, cerca das 16:30, já decorria uma assembleia popular promovida pela Acampada de Faro, a poucos metros da sede da CCDR Algarve, com a participação de aproximadamente duas dezenas de pessoas.
Segundo constatou a Lusa no local, os participantes debatiam e votavam propostas relacionadas com a ocupação de imóveis, habitação, apoios sociais e custo de vida.
As medidas tinham sido discutidas em assembleias populares realizadas nos dias anteriores, particularmente no sábado e no domingo, explicou um dos ativistas envolvidos na organização.
Entretanto, começaram a chegar mais manifestantes, que se concentraram no passeio junto à CCDR Algarve, atrás de barreiras colocadas pela polícia dias antes.
Cerca de meia hora depois do início da concentração, o protesto ganhou maior expressão, ultrapassando a centena de participantes.
Após a leitura de um texto de “A Passarada”, apresentado como o “jornal autónomo da acampada” e distribuído em formato de panfleto, os manifestantes começaram a entoar palavras de ordem, acompanhadas pelo som de uma gaita de foles.
“Montenegro, presta atenção, as tuas casas vão virar ocupação”, “Queremos casas para morar, e não para especular” e “Menos bastão, mais habitação” foram algumas das palavras de ordem repetidas durante cerca de uma hora.
Apesar de já terem ocorrido várias manifestações relacionadas com o direito à habitação em Faro, a cidade ainda não tinha registado a instalação de tendas no âmbito das acampadas organizadas a nível nacional.
Manifestantes consideram que protesto também é pela liberdade e democracia
Entre os participantes encontrava-se Afonso Coelho, que afirmou à Lusa que a mobilização ultrapassava a questão do acesso à habitação, estando também relacionada com a defesa dos direitos e liberdades fundamentais.
“Isto hoje já não é sobre habitação, é a defesa da liberdade e da democracia”, declarou, considerando que a dificuldade de acesso a uma casa está a contribuir para a construção de “uma sociedade desigual”.
O manifestante criticou a resposta policial aos protestos, associando-a a uma tendência de agravamento das desigualdades sociais.
“Estamos a ver que o autoritarismo é a resposta a essa sociedade desigual. As pessoas que estão aqui ficaram chocadas com o que se passou ontem à noite [madrugada de hoje]. Estamos a levar da polícia todos os dias quando estamos a defender um direito básico”, afirmou.
A desmobilização começou por volta das 18:30, tendo um dos elementos da Acampada de Faro convidado os participantes a integrarem os grupos de trabalho constituídos durante as assembleias populares.
A concentração foi convocada pelo Algarve em Resistência, movimento que reúne vários coletivos envolvidos na organização de manifestações pelo direito à habitação na região.
Durante a manhã, o grupo já tinha divulgado um comunicado a condenar a “repressão policial” nas acampadas de Lisboa e Porto, sustentando que, perante protestos pacíficos, “a resposta do Estado foi o bastão”.
Intervenção da PSP em Lisboa e Porto provocou 33 feridos e 31 detidos
A manifestação em Faro surgiu na sequência da intervenção da Polícia de Segurança Pública (PSP), durante a madrugada de domingo, nas acampadas pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto.
As autoridades recorreram a bastões e cães para dispersar os participantes, depois de mais de duas horas de tensão e de sucessivas ordens para que abandonassem os locais e retirassem as tendas.
Os manifestantes recusaram cumprir as determinações policiais, invocando o direito constitucional à manifestação.
Segundo os dados divulgados pela PSP, as intervenções resultaram em 33 feridos, dos quais 27 em Lisboa e seis no Porto.
Foram ainda detidas 31 pessoas por desobediência, 25 na capital e seis no Porto.
O movimento de contestação reivindica a reversão da nova lei do arrendamento, o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional e a imposição de limites à aquisição de imóveis destinados a habitação por fundos imobiliários.
Entre as exigências estão também o reforço da habitação pública, a recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais e a definição de tetos de renda “verdadeiramente acessíveis”.
A concentração em Faro constituiu, assim, uma manifestação de solidariedade com os participantes nas acampadas de Lisboa e Porto, associando as reivindicações pelo acesso à habitação à contestação da atuação policial.
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