Quem estava no Algarve a 22 de agosto de 1999 poderá recordar a tarde em que uma alegada onda gigante colocou banhistas e autoridades em alerta. Praias foram evacuadas, formaram-se filas de trânsito e espalhou-se a informação de que uma onda com vários metros de altura se aproximava da costa. O episódio é recordado numa reportagem de Nuno Couto, publicada pelo Jornal do Algarve em agosto de 2019.
O tsunami nunca chegou. Também não é possível determinar que zonas teriam sido inundadas por uma onda que não existiu. Num fenómeno real, os efeitos dependem da origem do tsunami, das características das ondas, da maré e da configuração do terreno e dos fundos marinhos.
Praia de Faro encontra-se na frente costeira
O Estudo do Risco Sísmico e de Tsunamis do Algarve, publicado pela então Autoridade Nacional de Proteção Civil em 2010, reúne relatos sobre o impacto de 1755 nas formações arenosas que separam Faro do oceano.
No capítulo de Fantina Tedim e João Gonçalves, as descrições históricas referem ondas que ultrapassaram as ilhas e provocaram danos nas barreiras litorais. É nesta frente costeira que se encontra a atual Praia de Faro, diretamente exposta ao oceano.
Aeroporto também surge entre as zonas vulneráveis
Um estudo de Henrique Vicêncio, publicado no volume de 2022 da revista científica Territorium, analisou diferentes cenários para o Aeroporto de Faro. A inundação até cotas de quatro a cinco metros poderia impedir voos comerciais, embora o autor admitisse operações de emergência.
No cenário de seis metros, uma parte considerável da pista ficaria inundada. As instalações dos bombeiros aeroportuários surgem expostas já à cota de três metros.
São, contudo, hipóteses simplificadas: o trabalho utiliza a altitude do terreno, sem simular a propagação das ondas e a sua interação com a costa. As cotas indicadas não correspondem à altura da onda no mar nem à profundidade da água em todo o aeroporto.
Ria Formosa pode atenuar o impacto, mas também sofrer danos
A geografia de Faro cria uma situação particular. Entre o núcleo urbano e o oceano encontram-se as ilhas-barreira e a laguna da Ria Formosa. Segundo a análise histórica publicada pela Proteção Civil, essa configuração contribuiu para reduzir o impacto de 1755 na cidade.
Um dos relatos citados refere que a maré estava baixa e que a água, depois de ultrapassar as ilhas e encontrar os bancos de sedimentos, não excedeu na cidade os limites de uma maré grande. As barreiras naturais sofreram, porém, danos importantes.
Faro não está livre do risco por estar atrás das ilhas
O comportamento descrito em 1755 não garante uma proteção idêntica num próximo tsunami. As condições de maré e as características do fenómeno podem ser diferentes, pelo que os relatos históricos não devem ser usados para classificar o núcleo urbano como uma zona automaticamente segura.
O planeamento municipal reconhece a necessidade de preparação. A versão do Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil de Faro aprovada pela comissão municipal em 2011 inclui expressamente os tsunamis entre as situações consideradas. O documento regista ainda um exercício realizado em novembro de 2010, articulado com o plano regional para o risco sísmico e de tsunamis.
Já a revisão do Plano Diretor Municipal, publicada pelo Aviso n.º 20948/2024/2, de 20 de setembro, contempla zonas inundáveis e condicionantes associadas à sismicidade. Essas disposições não devem, contudo, ser confundidas com um mapa que indique até onde chegaria um tsunami.
Em 1999, tentar fugir também provocou dificuldades
O falso alarme revelou problemas que não dependem diretamente da altura da água. Segundo a reportagem do Jornal do Algarve, a informação sobre uma suposta onda entre 12 e 25 metros provocou congestionamentos no litoral. Ao mesmo tempo, houve pessoas que permaneceram perto do mar para tentar observar o fenómeno anunciado.
As alturas divulgadas naquele dia pertencem ao relato do falso alarme, não a medições de um tsunami. Não podem, por isso, ser usadas para calcular os danos que teria provocado em Faro.
Os estudos e os relatos históricos permitem reconhecer vulnerabilidades na frente costeira e no aeroporto, mas não estabelecer uma lista definitiva das zonas que seriam mais afetadas em qualquer cenário. A experiência de 1755 ajuda a compreender o papel das ilhas-barreira, sem permitir garantir que um novo tsunami teria o mesmo comportamento ou produziria os mesmos efeitos.
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