A Igreja Matriz de Martim Longo, no concelho de Alcoutim, guarda uma particularidade que remonta ao início do século XVI. Documentos da época indicam que foram os próprios habitantes da aldeia que suportaram os custos da campanha de construção do templo, numa altura em que a povoação se encontrava sob a jurisdição da Ordem de Santiago.
De acordo com o portal Património Cultural, as Visitações da Ordem de Santiago registaram, em 1518, que a igreja tinha sido feita “de novo” pelos “moradores desta alldea de Martim Longuo” e “aa sua custa”. Nessa altura, o edifício estava praticamente concluído, embora ainda faltasse construir o campanário e a capela-mor permanecesse por terminar.
Moradores suportaram a construção
A referência a uma igreja feita “de novo” não significa necessariamente que todo o edifício tenha surgido do zero. A documentação indica que a capela-mor se encontrava “derribada”, circunstância que levou os investigadores a admitir que a intervenção possa ter correspondido à reforma de um templo anterior.
O corpo da igreja é, por isso, considerado a zona mais antiga. Está dividido em três naves e quatro tramos, separados por colunas que sustentam arcos apontados, enquanto a nave central apresenta uma altura superior às laterais.
Capela-mor teve outro financiador
A história dos pagamentos não terminou com a contribuição da população. A Visitação de 1518 determinava que a construção da capela-mor ficaria a cargo do Bispo e do Cabido de Silves, distinguindo esta intervenção daquela que tinha sido suportada pelos moradores.
Contudo, as obras demoraram. Em 1534, uma nova visita registava que a cabeceira ainda continuava derrubada e que apenas o campanário estava terminado. A capela-mor só ficou concluída cerca de duas décadas mais tarde, em 1554.
Pinturas já estavam degradadas no século XVI
O interior conservava também pinturas murais junto ao arco triunfal. Em 1565, os documentos já descreviam uma representação do Crucifixo acompanhada por Nossa Senhora, São João e outros santos, referindo que o conjunto se encontrava então bastante envelhecido e descolorido.
Da decoração interior destaca-se igualmente uma pia batismal manuelina, formada por uma bacia cilíndrica apoiada sobre uma base decorada com carrancas. Parte do recheio mais antigo, porém, desapareceu ao longo dos séculos, incluindo elementos associados à primitiva capela-mor.
Torreões no exterior levantaram dúvidas sobre a origem
Uma das características mais particulares da igreja encontra-se do lado sul, onde vários torreões cilíndricos reforçam o edifício. O maior encontra-se parcialmente escondido pela torre sineira, indício de que poderá ser anterior à construção desta última.
Chegou a ser avançada a hipótese de estas estruturas pertencerem a uma antiga mesquita, mas a fonte salienta que não existem elementos que permitam confirmar essa interpretação. Atualmente, é considerada mais plausível uma origem tardo-gótica associada ao mudejarismo do sul do território.
Terramoto também deixou marcas no edifício
Ao longo dos séculos, a igreja sofreu novas intervenções. Depois dos estragos provocados pelo terramoto de 1755, foi construído o grande janelão retangular que hoje se observa na parte superior da fachada principal.
Já no século XX, o estado do imóvel voltou a exigir uma intervenção profunda. Em 1968, encontrava-se em situação de ruína e foi alvo de um amplo restauro promovido pela então Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, responsável em grande medida pelo aspeto atual de um templo cuja história começou, em parte, com dinheiro saído do bolso dos próprios moradores de Martim Longo.
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