Se recuarmos mais de 2.000 anos no tempo, quando o Algarve fazia parte do mundo romano, as águas que brotam na Serra de Monchique já despertavam interesse. Os romanos procuravam-nas e chegaram a associá-las a um caráter sagrado, numa relação com as nascentes que deixou vestígios arqueológicos na região.
Existem referências à utilização das águas de Monchique desde o século I antes de Cristo, quando eram procuradas para aliviar o cansaço do corpo e da mente. A tradição ficou ligada à expressão “águas sagradas”, uma designação que atravessou séculos de história local.
Inscrição romana reforça a ligação às águas
Entre os achados arqueológicos feitos nas proximidades das nascentes encontra-se uma ara votiva com uma inscrição em latim dedicada às “Águas Sagradas”. O portal Visit Monchique aponta este elemento como um dos testemunhos da importância que as águas já assumiam durante o período romano.
Os vestígios encontrados na zona levam ainda a admitir que tenha existido aqui um primeiro complexo termal naquela época. A procura pelas águas não seria, portanto, ocasional, mas parte de uma utilização organizada de um recurso natural que continuaria a marcar Monchique durante os séculos seguintes.
Água chega à superfície a cerca de 32 graus
As Caldas de Monchique encontram-se num vale da serra, aproximadamente 250 metros acima do nível do mar. É neste cenário rodeado de vegetação que as águas mineromedicinais chegam naturalmente à superfície com uma temperatura próxima dos 32 graus.
A água apresenta ainda um pH de 9,5 e é descrita pela fonte local como a mais alcalina de Portugal. A sua composição inclui bicarbonato, sódio e flúor, características que estão na base da utilização termal atualmente feita neste ponto do Algarve.
Até um rei português procurou estas águas
A fama das nascentes atravessou a Idade Média e chegou à monarquia portuguesa. Em 1495, no último ano da sua vida, D. João II terá tomado banho nas águas de Monchique, antes de morrer posteriormente em Alvor, no atual concelho de Portimão.
O episódio mostra como o local continuou associado ao bem-estar muito depois do desaparecimento do domínio romano. Ao longo do tempo, a utilização das nascentes foi ganhando novas formas, até dar origem à atividade termal que permanece atualmente.
É a única estância termal do Algarve
Segundo a mesma fonte, a Villa Termal das Caldas de Monchique é atualmente a única estância termal existente no Algarve. Entre os tratamentos disponibilizados encontram-se duches de jato e de Vichy, massagens, hidromassagens e aplicações de lamas.
Existe também um circuito de relaxamento termal com piscina interior de hidromassagem aquecida, sauna e banho turco. A utilização contemporânea das águas mantém assim uma ligação direta a um recurso natural conhecido e procurado há vários períodos históricos.
Serra guarda muito mais do que as termas
A localização contribui igualmente para distinguir este território do Algarve mais associado às praias. As Caldas de Monchique encontram-se num vale serrano marcado pela vegetação, enquanto o ponto mais elevado da região é a Fóia, de onde se observa uma ampla parte do território envolvente.
Entre vestígios romanos, águas quentes que emergem naturalmente e uma tradição termal com séculos, Monchique conserva uma história pouco habitual no sul do país. Aquilo que hoje é uma estância termal já era procurado há mais de 2.000 anos por populações que deixaram gravada em pedra uma expressão que continua associada ao local: “Águas Sagradas”.
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