Quem atravessa o Arco da Vila para entrar na zona histórica de Faro passa por um dos símbolos mais conhecidos da cidade, mas pode não reparar num elemento muito mais antigo escondido no interior da estrutura. Ali permanece uma porta de origem islâmica que fazia parte das antigas muralhas e que era utilizada por quem chegava à cidade vindo do mar.
O atual Arco da Vila marca a entrada na Vila a Dentro e, segundo o portal Património Cultural, foi construído no local onde já existia uma das portas medievais de acesso ao recinto amuralhado. O portal monumental que hoje se observa é do início do século XIX, mas conserva vestígios de uma história que recua vários séculos.
Arco atual só foi inaugurado em 1812
A construção foi promovida pelo bispo D. Francisco Gomes de Avelar, que encomendou o projeto ao arquiteto genovês Francisco Xavier Fabri. Este foi trazido de Itália e ficou responsável por desenhar o novo portal monumental, inaugurado em 1812.
A intervenção pretendia também valorizar a então Praça da Rainha e reforçar a importância de Faro enquanto sede do bispado. A fachada foi concebida em estilo neoclássico e apresenta duas colunas jónicas de cada lado do vão principal de entrada.
São Tomás de Aquino observa quem entra
Sobre a passagem existe um nicho onde foi colocada uma imagem em mármore de São Tomás de Aquino, apontado pela fonte como padroeiro da cidade pelo menos desde 1620. O conjunto é rematado por um frontão, balaustradas, acrotérios e uma pequena torre sineira.
Do lado interior, contudo, a arquitetura muda de linguagem. Para além da tradicional abóbada em tijolo, encontra-se uma estrutura bastante anterior ao portal oitocentista e diretamente relacionada com a Faro islâmica.
Uma porta do século XI permanece no local
À direita de quem entra encontra-se um arco de ferradura atribuído ao século XI. Segundo a mesma fonte, foi desentaipado em 1992 e corresponde a uma das antigas portas da cidade islâmica, possivelmente integrada num acesso em cotovelo.
A estrutura foi construída com pequenos silhares e apresenta uma sequência de aduelas alternadas. Importa ainda destacar que este é o único arco de ferradura ainda no local de origem em todo o Algarve, tornando este detalhe particularmente relevante para compreender a evolução da cidade.
Era por aqui que se entrava vindo do mar
O portal turístico Visit Portugal acrescenta ainda que esta Porta Árabe fazia parte das antigas muralhas muçulmanas e funcionava como entrada na cidade para quem chegava por via marítima. O seu estado de conservação e a permanência no local original são apontados como características de especial importância patrimonial.
A antiga entrada surge inclusive representada em documentação medieval. Uma imagem datada do século XIII aparece em iluminuras das Cantigas de Santa Maria, obra associada a Afonso X, o Sábio, rei de Leão e Castela.
Séculos diferentes convivem no mesmo monumento
O Arco da Vila reúne, assim, elementos separados por muitos séculos. À porta islâmica juntou-se no século XIX um portal neoclássico de influência italiana, criando uma sobreposição de períodos históricos num dos principais acessos ao centro antigo de Faro.
Quem atravessa atualmente o monumento entra na Vila a Dentro através de uma construção inaugurada há pouco mais de 200 anos, mas passa ao lado de uma estrutura que remonta ao período muçulmano. Um pormenor discreto que transforma um dos arcos mais fotografados de Faro num testemunho da cidade que existia muito antes da configuração atual.
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