Muito antes de existirem as redes de saneamento modernas, uma pequena povoação do Algarve já dispunha de um sistema capaz de transportar águas residuais e águas da chuva para fora das suas muralhas. A estrutura foi construída há cerca de 800 anos, numa época em que o território algarvio ainda estava sob domínio muçulmano, e os vestígios da antiga povoação continuam a fazer parte de um monumento que pode ser visitado.
Trata-se do Castelo de Paderne, situado no concelho de Albufeira, onde existiu uma comunidade organizada em ruas e quarteirões, com habitações construídas em torno de pátios interiores. Lê-se no portal Visit Portugal que esta fortaleza foi erguida durante o período almóada, entre o século XII e as primeiras décadas do século XIII, conservando testemunhos da arquitetura militar e da organização urbana islâmica.
Castelo escondia uma povoação com ruas planeadas
Apesar de ser atualmente conhecido sobretudo pelas suas muralhas, o Castelo de Paderne não desempenhava apenas uma função defensiva. No interior existia uma alcaria, designação utilizada para pequenas povoações rurais durante o período islâmico, protegida por uma muralha robusta e por uma torre albarrã que reforçava a segurança da entrada.
Segundo o portal Geoparque Algarvensis, o espaço foi planeado de raiz, com um traçado urbano organizado em ruas estreitas e quarteirões habitacionais. As casas dispunham de pátios centrais, uma característica da arquitetura doméstica da época, e estavam integradas numa rede de circulação que incluía um sistema destinado ao escoamento das águas.
Como funcionava o sistema de esgotos há 800 anos?
Uma das particularidades desta povoação era a existência de canalizações que percorriam os arruamentos e permitiam transportar as águas residuais e pluviais para o exterior do recinto fortificado. Desta forma, a comunidade dispunha de uma solução para encaminhar a água para fora da zona habitada, através de um sistema que fazia parte do planeamento original do espaço.
Esta organização constitui um dos aspetos mais interessantes do património arqueológico de Paderne. Contudo, importa distinguir aquele sistema medieval de uma rede de saneamento contemporânea, uma vez que se tratava de uma infraestrutura de drenagem, sem os processos de tratamento de águas residuais que existem atualmente.
Fortaleza controlava uma passagem importante no Algarve
A construção do castelo está relacionada com a expansão do reino português para sul, que levou os governantes muçulmanos a reforçar as posições defensivas do território. Situada numa elevação próxima da ribeira de Quarteira, a fortaleza permitia vigiar uma importante passagem entre o interior e o litoral algarvio, numa zona entre Silves e Loulé.
O castelo foi construído sobretudo em taipa militar, técnica que utiliza terra compactada para erguer estruturas resistentes. A fortificação acabou por ser conquistada em 1248 pelos cavaleiros da Ordem de Santiago, sob o comando de D. Paio Peres Correia, tendo os novos ocupantes cristãos introduzido alterações na organização inicial da povoação.
Ruínas permitem conhecer diferentes períodos da história
No interior do castelo permanecem vestígios das antigas habitações e duas cisternas associadas aos principais períodos de ocupação, o islâmico e o cristão. Também se encontram as ruínas da Ermida de Nossa Senhora da Assunção, construída posteriormente, quando a fortaleza já se encontrava sob domínio português.
A população acabou por abandonar progressivamente o recinto, transferindo-se para a localização da atual aldeia de Paderne durante o século XVI. O terramoto de 1755 contribuiu para agravar a degradação das estruturas, embora parte das muralhas tenha resistido. Classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1971, o castelo é ainda identificado pelo Turismo de Portugal como um dos sete representados na bandeira nacional.
É possível visitar o Castelo de Paderne?
As ruínas continuam a receber visitantes, embora o acesso ao interior do monumento esteja sujeito a condições específicas. No período de inverno, o castelo abre ao público na primeira e na terceira quarta-feira de cada mês, entre as 10 h e as 13 h.
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