Sabe-se que durante vários séculos, uma estrutura com mais de 18 metros de profundidade permaneceu escondida no centro de Silves, chegando a servir de base para uma casa construída no século XIX. Trata-se do Poço-Cisterna Almóada, uma obra dos séculos XII e XIII que só voltou a ser conhecida no final do século XX e que é considerada um exemplar único em Portugal.
Lê-se num artigo do portal Visit Portugal, que o poço-cisterna encontra-se atualmente integrado no Museu Municipal de Arqueologia de Silves, instituição criada em 1990 precisamente em torno desta construção. O monumento destaca-se pela profundidade, mas sobretudo pela existência de uma escadaria em espiral que permitia chegar à água a diferentes níveis.
Escadaria desce mais de 18 metros
A estrutura apresenta cerca de 2,5 metros de diâmetro e ultrapassa os 18 metros de profundidade. No interior, uma escadaria relativamente ampla contorna o poço em espiral, acompanhando a descida até às zonas mais profundas da cisterna.
Ao longo desse percurso abrem-se três janelas colocadas a alturas diferentes. Segundo o Património Cultural, estas permitiam aceder à água consoante o nível de enchimento do reservatório e contribuíam também para um maior arejamento da água armazenada.
Construção é considerada única em Portugal
É precisamente a combinação entre a cisterna e a escadaria espiralada que torna a estrutura particularmente rara. Embora Silves conserve outros sistemas históricos de abastecimento de água, como as cisternas da Moura e dos Cães, nenhuma apresenta esta solução arquitetónica.
Os investigadores chegaram a identificar um paralelo muito distante em Tuna al-Gabal, a sul do Cairo, onde existe uma cisterna de origem romana também dotada de uma escadaria em espiral e com cerca de 14 metros de profundidade. Em território português, porém, o exemplar de Silves é apresentado como único.
Ficou entulhado no final do século XVI
O poço-cisterna deixou de cumprir a sua função original e acabou completamente preenchido com materiais no final do século XVI. Entre os objetos encontrados durante as escavações estavam cinco reais do reinado de D. Sebastião, elementos que ajudaram os investigadores a compreender quando ocorreu o entulhamento.
Há, contudo, indícios de que a estrutura possa ter deixado de ser utilizada ainda antes. O facto de não aparecer mencionada no Livro do Almoxarifado de Silves, elaborado durante a década de 1470, levou os arqueólogos a admitir que a desativação pudesse ter ocorrido por volta de meados do século XV.
Uma casa foi construída por cima
Depois de desaparecer sob os materiais acumulados, a antiga cisterna ficou esquecida durante gerações. No século XIX, o espaço chegou mesmo a funcionar como chão de uma casa de habitação, sem que a construção islâmica existente vários metros abaixo voltasse a desempenhar a sua antiga função.
A estrutura foi identificada apenas no final de 1979 e posteriormente escavada durante a década de 1980. Os trabalhos permitiram encontrá-la num bom estado de conservação e contribuíram para conhecer melhor Silves durante o último período de domínio islâmico, entre a conquista cristã de 1189 e a tomada definitiva da cidade em 1249.
Escavações revelaram objetos de vários países
No interior foram recuperados numerosos fragmentos de cerâmica dos séculos XV e XVI. Entre o espólio encontram-se peças provenientes de Valência e Sevilha, mas também exemplares de origem italiana, holandesa e chinesa, além de produções locais, fornecendo pistas sobre a vida quotidiana e os contactos comerciais da cidade naquele período.
O poço-cisterna tornou-se entretanto o elemento central do Museu Municipal de Arqueologia de Silves e foi classificado como Monumento Nacional. O museu reúne ainda achados que atravessam diferentes períodos, da Pré-História à época moderna, mas é esta construção escondida durante séculos que permanece como um dos testemunhos mais singulares da Silves islâmica.
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