Sete escritores residentes no Algarve juntaram-se para criar o coletivo literário Espúria, um projeto de edição independente que procura aproximar os autores dos leitores e dinamizar a atividade cultural na região, através de publicações próprias e de encontros que cruzam diferentes expressões artísticas.
Fundado em 2023, o grupo surgiu da necessidade de recuperar a proximidade com o público após as restrições impostas pela pandemia de covid-19. A iniciativa reuniu autores com obras já publicadas, interessados em desenvolver uma alternativa aos formatos tradicionais de divulgação literária, envolvendo outros escritores e artistas das comunidades locais.
“Queremos escrever, mas queremos ser ouvidos também. Mais do que publicados, queremos ser ouvidos”, afirmou à agência Lusa Luís Ene, um dos elementos do coletivo, explicando que a intenção inicial passava por criar “qualquer coisa de diferente, fora dos circuitos comerciais”.
O escritor reconhece, contudo, as dificuldades de afirmar projetos culturais no Algarve, sobretudo num setor editorial de pequena dimensão e onde considera existir pouca proximidade entre os diferentes intervenientes. Segundo Luís Ene, o “meio editorial é pequeno” e “ninguém conhece ninguém em termos de publicação”, circunstâncias que reforçaram a vontade do grupo de encontrar novas formas de chegar aos leitores.
Literatura cruza-se com música e encontros abertos à comunidade
Nos encontros organizados pela Espúria, a literatura sai do formato tradicional de apresentação de livros para se cruzar com música, leituras e momentos de diálogo com o público.
Uma das apostas do coletivo passa pela edição de pequenas revistas literárias, conhecidas como zines, distribuídas durante os eventos para permitir que os participantes acompanhem os textos apresentados.
“A revista era dada e era ver as pessoas com a revista na mão, a seguirem os textos”, recordou Luís Ene, que identifica nessa partilha uma forma de criar proximidade com o público e conseguir alcançar mais pessoas.
A participação nas iniciativas não se limita aos elementos do coletivo. Outros escritores são convidados a publicar e a apresentar os seus trabalhos, numa estratégia que procura dar visibilidade a diferentes vozes literárias.
“Não íamos fazer isto só para nós. Isso era inconcebível”, sublinhou Pedro Jubilot, outro dos membros da Espúria, defendendo a importância de divulgar a produção literária de outros autores.
O escritor lamenta, contudo, a tendência para a criação literária permanecer afastada do contacto com os leitores. “No nosso tempo, metade dos escritores escreviam para eles próprios”, observou.
Coletivo já publicou seis livros e homenageou fundador falecido
A Espúria nasceu num período em que, segundo os seus elementos, era necessário “revigorar a cena literária”, depois das limitações impostas pela pandemia.
O projeto começou com encontros culturais e a distribuição de pequenas revistas literárias, mas acabou por alargar a atividade à publicação de livros, contando atualmente com seis obras editadas.
O lançamento mais recente aconteceu em outubro, com a publicação póstuma de um livro de Paulo Moreira, um dos fundadores do coletivo, falecido este ano.
Além de Paulo Moreira, o grupo foi constituído por Sara Monteiro, Dário Agostinho, Luís Ene, Marco Mackaaij, Vitor Gil Cardeira e Pedro Jubilot.
A Espúria funciona sem fins lucrativos, assentando num modelo de financiamento assegurado inicialmente pelos próprios autores e, posteriormente, pelas receitas obtidas com a venda das publicações.
“Cada um de nós entrou com uma quantia para fazer o primeiro livro. E depois os livros seguintes foram pagos pelas vendas dos livros que, entretanto, se foram publicando”, explicou Luís Ene.
O coletivo encontra-se agora a um livro de completar a coleção editorial que se propôs desenvolver.
Editora de Faro apoia projeto que também enfrenta dificuldades
O desenvolvimento da atividade editorial tem contado com o apoio da Sílabas & Desafios, editora sediada em Faro que se associou ao projeto desde a sua criação.
Luís Ene e Pedro Jubilot reconhecem que esta colaboração foi determinante para concretizar a publicação das obras.
“Sozinhos, nunca teríamos chegado aqui”, admitem os dois escritores.
Jaime de Almeida, da editora Sílabas & Desafios, considera que a parceria com a Espúria “contribui para ampliar a projeção do coletivo e reforça a ligação entre a edição e novas dinâmicas de intervenção cultural”.
Apesar do percurso desenvolvido desde 2023, os responsáveis reconhecem que a concretização de iniciativas culturais no Algarve continua a enfrentar obstáculos, nomeadamente na relação com algumas autarquias.
“Nós também recebemos algumas manifestações de indiferença por parte de câmaras municipais, quando fizemos propostas. Não foi tudo um mar de rosas”, concluiu Luís Ene.
Entre a edição de livros, a organização de encontros culturais e a divulgação de novos autores, a Espúria procura continuar a criar espaços de contacto entre a literatura e o público algarvio, mantendo a independência editorial que esteve na origem do projeto.
Leia também: Continente abre novo supermercado no Algarve e oferece cabazes aos primeiros 150 clientes
















