A espanhola de 87 anos que se tornou um dos rostos da luta pelo direito à habitação em Espanha, Maricarmen Abascal, morreu esta quarta-feira no Hospital Gregorio Marañón, em Madrid. A idosa encontrava-se internada desde 23 de setembro, dia em que foi despejada da casa onde tinha vivido durante cerca de sete décadas.
O caso provocou uma onda de solidariedade e desencadeou manifestações em várias cidades espanholas. Maricarmen acabou mesmo por conseguir um acordo que lhe permitiria regressar à habitação, mas morreu antes de receber alta hospitalar e concretizar esse desejo.
Viveu na mesma casa durante 71 anos
A história de Maricarmen naquela habitação começou em 1956, quando o pai arrendou um apartamento no distrito madrileno do Retiro. Depois da morte dos pais, o contrato acabou por ficar em seu nome e a espanhola continuou a viver na mesma casa.
Durante décadas, pagou uma renda antiga próxima dos 500 euros, incluindo algumas despesas, mas a situação mudou depois de o imóvel ser adquirido por uma empresa imobiliária. A partir de 2020, começaram as tentativas para retirar Maricarmen da habitação.
Ao longo dos anos seguintes foram feitas várias tentativas de despejo. A quarta acabou por concretizar-se a 23 de setembro de 2026.
Maricarmen saiu de casa em cadeira de rodas e foi posteriormente colocada numa maca e transportada para o Hospital Gregorio Marañón, onde permaneceria internada até morrer.
Despejo levou milhares de pessoas às ruas
As imagens da idosa a abandonar a casa onde viveu praticamente toda a vida provocaram uma forte reação em Espanha.
Seguiram-se manifestações, protestos e uma acampada na Puerta del Sol, em Madrid, com o caso de Maricarmen a transformar-se num símbolo da crise da habitação e da situação de pessoas vulneráveis sujeitas a despejo.
Mesmo internada, Maricarmen continuou a enviar mensagens aos manifestantes, incentivando-os a defender os seus direitos e a manter a mobilização.
Governo espanhol reagiu ao caso
A repercussão chegou também ao Governo espanhol. Numa comunicação oficial do Governo espanhol, a ministra da Habitação, Isabel Rodríguez, afirmou que Espanha não podia “olhar para o lado” perante situações deste género e defendeu medidas que impedissem a repetição de um caso como o de Maricarmen.
O Executivo acabou por avançar com dois decretos-lei destinados a reforçar a proteção do direito à habitação, incluindo medidas relacionadas com despejos de pessoas vulneráveis e a estabilidade dos contratos de arrendamento. As normas foram novamente aprovadas pelo Conselho de Ministros em outubro.
Chegou a acordo para voltar para casa
Depois de vários dias de protestos e negociações, foi alcançado um entendimento com a empresa proprietária.
O acordo permitiria que Maricarmen regressasse à mesma habitação através de um novo contrato de arrendamento, mantendo um valor próximo daquele que pagava anteriormente. A idosa chegou a manifestar satisfação com a solução e esperava regressar assim que recebesse alta hospitalar.
Isso nunca chegou a acontecer.
“Lutem e continuem a lutar pelo que é vosso”
Após a morte, a família, a advogada e o Sindicato de Inquilinas lamentaram que a solução tenha chegado demasiado tarde.
Na mensagem de despedida, recordaram também aquele que se tornou um dos apelos mais marcantes de Maricarmen durante os protestos: “Lutem e continuem a lutar pelo que é vosso”.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, também reagiu à morte da idosa, deixando uma mensagem de pesar à família e às pessoas próximas de Maricarmen.
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