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A Edição Papel

O Algarve está na moda

Jéssica Sousa

Henrique Dias Freire

23-05-2021

Fomos saber um pouco mais sobre como resiste a moda do Algarve à pandemia. Falámos com Raul Leal, estilista, tavirense de raiz, que abraça a moda desde muito cedo e continua o seu futuro a fazer o que mais gosta. Para o lançamento da sua coleção de verão de 2021, quis uma cara forte do sul do país e Patrícia Ponte foi a escolhida

O Postal do Algarve foi saber mais para além de como se cosem os botões no mundo da moda nas redondezas do Algarve. Tal como todos os setores foram atingidos pela pandemia, o mercado da moda sofreu perdas e adaptou-se aos obstáculos da costura.

Raul Leal é estilista, tavirense de raiz, abraça a moda desde muito cedo e continua o seu futuro a fazer o que mais gosta. Teve as melhores vendas em 2019 e vários projetos pensados para 2020, mas com a pandemia, as fábricas não estavam a funcionar e a confeção ficou parada. O estilista comprou tecidos a partir do mercado online, uma opção arriscada para quem está habituado a sentir a textura dos tecidos e a coleção de verão de 2020 foi lançada com trabalho feito a partir de casa.

Este designer de moda tenta sempre envolver nas suas criações o Algarve. Inspira-se nas raízes algarvias e portuguesas, no fado e nas danças de salão, que praticou durante alguns anos da sua juventude. Trabalha com microempresas com costureiras pequenas e estabelecimentos de impressões na roupa porque gosta de apoiar e dar oportunidades de trabalho aos filhos da terra. Por esta razão, para o lançamento da sua coleção de verão de 2021, quis uma cara forte do sul do país e Patrícia Ponte foi a escolhida.

A máquina de costura não para e existem novos projetos da marca Raul Leal a caminho. O fecho da coleção de verão de 2021 vai acontecer antes de agosto e a modelo olhanense vai fazer parte da próxima campanha. A coleção de inverno já está a ser planeada.

Para Raul, a moda ainda é um assunto “tabu” em Portugal. As modelos plus size não são realmente plus e o grande problema é haver poucas agências de modelos. As poucas que existem são dirigidas pelas mesmas pessoas de há 20 anos. Os padrões de beleza ainda são utilizados e os manequins ainda são rotulados pelo seu peso e altura. Apesar de ser um aspeto fortemente criticado, poucas são as mudanças visíveis. A exploração do mundo da moda, a nível global, é um outro problema que indigna quem conhece a área. Horas a fio de trabalho e exploração infantil e de trabalho persistem.

O estilista lamenta que o Algarve não aposte nada na moda, acrescentando que poucos são os desfiles que cá acontecem e um dos motivos aparentes pode ser o facto da população não se interessar tanto por moda, o que resulta em pouca oferta. Contudo, a geração atual tem mais gosto em se vestir bem e a moda é muito rápida. É fácil ver e comprar, o que não acontecia em tempos passados.

Em pandemia, os trabalhos de manequim atrasaram imenso; os clientes não procuravam por modelos e os castings começaram a ser através de vídeos de curta duração com uma breve apresentação. Agora, o setor está a regressar à normalidade e os trabalhos começam novamente a surgir.

Patrícia Ponte com um vestido da autoria de Raul Leal
Fotos D.R.

Patrícia Ponte pretende conjugar a moda com a psicologia


Patrícia Ponte é natural de Olhão, tem 17 anos e é agenciada. Tirou um mini curso de artes performativas no verão e rapidamente apaixonou-se. Procurou agências de modelos, foi aceite na Central Models, e pretende conjugar a moda com a psicologia.

De presença forte e formidável, vestiu a primeira peça da coleção de verão deste ano, criada pelo estilista tavirense. Um vestido com corte princesa com o padrão tropa, inspirado nos militares e chefias, foi a forma que Raul Leal encontrou para colocar o seu feminismo na peça para romper os padrões e mostrar que as mulheres são tão fortes quanto os homens.

As propostas para esta manequim são maioritariamente de Lisboa e o trabalho com o Raul foi a sua estreia cá no Algarve.

Apoio incondicional dos pais


Apesar do mercado da moda ser conhecido por alguns dos seus perigos, os pais de Patrícia Ponte sempre a apoiaram em tudo. Numa fase inicial e com desconhecimento do meio, acompanharam-na até aos castings e pesquisaram de modo a perceber como o ramo funciona e com quem estaria diariamente em contacto. Aprovaram a sua paixão, mas relembraram que os estudos nunca deviam deixar de ser prioridade.

Para Patrícia vingar neste ramo precisou de saber ouvir nãos que, apesar de não serem a melhor resposta, transformam-se em experiências de aprendizagem.

Nunca desistir, prosseguir com os objetivos, não deixar que pequenos detalhes a derrubem e continuar humilde foram os conselhos dos pais que querem o melhor para o seu raio de sol.