A Edição Papel

LETRAS & LEITURAS: O Gato Que Chora Como Pessoa, de Geremias Mendoso

Paulo Serra

19-03-2021

Artigo de opinião de Paulo Serra sobre o livro de estreia de Geremias Mendoso, que foi agraciado com o Prémio Branquinho da Fonseca Expresso/Gulbenkian 2019, na Modalidade Juvenil

O Gato Que Chora Como Pessoa,de Geremias Mendoso, foi publicado pela Caminho e agraciado com o Prémio Branquinho da Fonseca Expresso/Gulbenkian 2019, na sua 10.ª edição, na Modalidade Juvenil. Esta cuidada edição de capa dura conta ainda com belíssimas ilustrações de Samuel (Arão) Djive, artista plástico já com relevo.

O livro de estreia do autor é composto por 19 breves contos, que funcionam como instantâneos da vida em Moçambique, onde se cruzam temas recorrentes como a pobreza, a fome, as cheias, o alcoolismo, a autoridade e, muito especialmente, um imaginário popular muito vivo, com adivinhos, curandeiros e feiticeiros em abundância, e cobras que matam pessoas ao morder a sua sombra.

O livro de estreia de Geremias Mendoso é composto por 19 breves contos, como se fossem instantâneos da vida em Moçambique
Foto D.R.

Numa voz original, o autor tem um ou outro conto próximo do modelo da literatura oral, como «Cato no deserto» (espécie de conto exemplar) ou «Os desconhecidos caminhos de André» (em que à transgressão se segue a expulsão). Sem se colar a modelos, Geremias Mendoso encontrou uma voz própria, poética até, em frases como «Conformado com a minha pobreza, eu ia à escola descalço e com os cadernos no plástico.» (p. 13), para nos contar histórias tão trágicas quanto anedóticas que retratam a vivência naquele que é um dos países mais díspares. Mia Couto assina aliás um pequeno texto de apresentação na contra-capa onde refere: «Se o nome Geremias Mendoso pode parecer estranho, este livro causa ainda maior perplexidade. Raramente um texto de estreia contém já aquilo que um escritor busca em toda a sua carreira: uma voz própria, um modo único de narrar. Li este livro como quem escuta Moçambique.»

Estes contos são escritos numa variante do Português onde podemos encontrar expressões bastante típicas, já cristalizadas, no falar moçambicano como «Peço uma manga», «saímos fora», «toda minha família», «Está ver». Dos 19 contos, «Salvo das mãos do Diabo» é um dos poucos que não termina abrupta ou tristemente, pois praticamente todas as narrativas terminam mal, como que a revelar o peso da vida (e da morte), como acontece especialmente em «De como findou a vida de Aldo e Timolol». São histórias de vidas tão miseráveis que por vezes nem o corpo do morto pode encontrar descanso. Curiosamente o último conto conta-nos como a vida d’«O Português» Vasco encontra um final ironicamente feliz.

O autor Geremias José Mendoso, de 23 anos, é de nacionalidade moçambicana e enfermeiro licenciado pela Faculdade de Ciências de Saúde da Universidade Lúrio, em Nampula.