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Opinião

Portugal fora da “lista verde” britânica: pouco mudou na “velha aliança”

Expresso

09-06-2021

A decisão do Reino Unido de retirar Portugal da “lista verde” dos países mais seguros para viajar em tempo de pandemia espantou por cá muito boa gente. Aqui e ali, tal como aconteceu em vários momentos da História, evocou-se a “velha aliança” como causa da surpresa

Como pode um estado com relações tão próximas com Portugal tomar uma medida unilateral que prejudica a recuperação da nossa economia? Acontece que a História da “velha aliança” tal como continua muitas vezes a ser apresentada - uma aliança interrupta entre dois estados fraternos - não passa de uma ideia romântica que diz mais a portugueses que a britânicos.

Convido o caro leitor a uma viagem pelo passado para ilustrar esta minha afirmação. As relações diplomáticas próximas entre portugueses e ingleses formalizaram-se em finais do século XIV (1372) pelo tratado de Tagilde, assinado por D. Fernando I e o duque de Lancaster, filho de Eduardo III de Inglaterra. Os ingleses procuravam contrabalançar o apoio que Castela estava a dar a França no contexto da guerra dos 100 anos e, também, o suporte português à candidatura do duque de Lancaster ao trono castelhano. Este pacto de interesses convergentes foi particularmente expressivo durante a disputa do trono português entre D. João, mestre de Avis e Juan I, rei de Castela (1383-85). Então, a ajuda militar que os ingleses deram aos portugueses foi a primeira de muitas para evitar a união dos reinos da península. Em determinados períodos da História, esta seria negativa para os interesses ingleses.

Seguiram-se séculos de relações distantes e sem grandes interesses em comum (muito pelo contrário: a partir de 1580, com a união dinástica, os corsários ingleses não pararam de assolar a costa portuguesa) até que, em princípios do séc. XVIII, os já britânicos redescobriram o interesse estratégico de Portugal. O então reino da Grã-Bretanha consolidava-se como potência marítima, procurava controlar o atlântico, onde tinha França como principal rival. A partir de 1713, com a dinastia de Borbom definitivamente instalada em Espanha (dinastia de origem francesa), tornou-se estrategicamente vital para os britânicos garantir o controlo do porto de Lisboa.

O tratado de Methuen (1703) foi o ponto de partida para esta nova realidade, e para a relação desigual entre Portugal e Grã-Bretanha que se manteria principalmente durante os séculos XVIII e XIX. Foi contra esta relação desigual que se insurgiu o marquês de Pombal. Aquando da sua estada em Londres como embaixador, este apercebeu-se do quanto os britânicos beneficiavam com o comércio dos produtos brasileiros e o controlo do negócio do vinho do Porto, e quanto a incipiente indústria portuguesa era prejudicada pelo tratado de Methuen.

A relação desigual entre os “velhos aliados” manteve-se no século XIX. É certo que os britânicos ajudaram os portugueses a defenderem-se das invasões napoleónicas, mas fizeram-no porque interessava-lhes manter o controlo do porto de Lisboa e do comércio brasileiro (pelo mesmo motivo, tiveram papel crucial na independência do Brasil). No século XIX, os britânicos interferiram ainda na guerra civil portuguesa (1832-1834); na Patuleia, garantindo o trono de D. Maria II (1847) e, sobretudo, cortaram o sonho português de expandir os seus territórios africanos da costa à contracosta (o célebre ultimato de 1890, que tanta indignação causou).

Ao longo da sua História, os britânicos desconfiaram sempre de alianças permanentes. Preferem analisar o contexto, e intervêm quando consideram que o equilíbrio continental está ameaçado. Foi por isso que entre 1792 e 1815 se aliaram com o mundo germânico contra a ameaça francesa (França revolucionária e período napoleónico), e que nas duas grandes guerras se aliaram a franceses contra a ameaça germânica (no caso da II guerra mundial, ainda bem que assim o fizeram, pois impediram a hegemonia do totalitarismo nazi).

Os britânicos encaram a sua política externa com grande pragmatismo. Ao contrário de França no período revolucionário e napoleónico ou dos Estados Unidos do pós II Guerra Mundial, não são messiânicos. Sobretudo enquanto dominaram os mares (séculos XVIII e XIX), foi de seu especial interesse garantir influência sobre pontos estratégicos do continente europeu, como Portugal e suas ilhas atlânticas; a Bélgica (atlântico norte); Gibraltar (porta de entrada no mediterrâneo); Malta (passagem do atlântico para o mediterrâneo) e os estreito do Bósforo e Dardanelos (via de entrada no mediterrâneo oriental). A ideia da “velha aliança” entre dois estados que caminharam juntos ao longo da História e que falavam de para igual para igual é pois uma ideia romântica que se foi consolidando entre a segunda metade do século XIX e o século XX.

Nada disto esquece que os britânicos foram fundamentais na nossa História. Hoje, Portugal é encarado como um aliado, pois partilha com os britânicos valores e interesses comuns e a pertença às mesmas organizações internacionais (como a NATO). Muitos portugueses trabalham no Reino Unido, na academia, na banca, no setor dos serviços, e muito britânicos escolheram Portugal para viver. As relações diplomáticas e económicas entre os dois países são genericamente boas, apesar de episódios como a exclusão da “lista verde” relembrarem uma vez mais o pragmatismo britânico. Os pontos aqui desenvolvidos não resultam assim numa posição contra os britânicos, consistem apenas numa interpretação de factos. Sobretudo, procuram recordar algo óbvio: os portugueses continuam a precisar mais dos britânicos do que estes dos portugueses. Pouco mudou pois na “velha aliança”.


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