Opinião

Leitura da Semana: Um Terrível Verdor, de Benjamín Labatut

Paulo Serra

01-06-2021

Esta semana, Paulo Serra propõe a leitura de uma obra finalista da edição deste ano do International Booker Prize, cujo vencedor será anunciado amanhã, dia 2 de junho, definido pelo autor como um "livro de ficção baseado em factos reais"

Um Terrível Verdor, de Benjamín Labatut, publicado pela Elsinore, é um dos finalistas da edição deste ano do International Booker Prize, cujo vencedor será anunciado amanhã, dia 2 de Junho. Entre os finalistas, constam ainda The Dangers of Smoking in Bed, de Mariana Enríquez, cuja obra tem sido publicada cá pela Quetzal, e A Guerra dos Pobres, de Éric Vuillard, publicado pela Dom Quixote. Um Terrível Verdor e A Guerra dos Pobres têm em comum, curiosamente, a particularidade de serem trabalhos híbridos entre o romance e o documental. Acrescente-se ainda que a vencedora da edição do ano passado foi Marieke Lucas Rijneveld, cuja obra O Desassossego da Noite acaba de ser lançada pela Dom Quixote.

O escritor Benjamín Labatut
Foto D.R.

Um Terrível Verdor, definido pelo autor como um «livro de ficção baseado em factos reais», é composto por quatro partes, sendo que a tónica na ficção aumenta consoante a progressão do livro. Diz-nos o autor que existe um único parágrafo ficcional no primeiro texto, intitulado «Azul da Prússia», enquanto que em «A Singularidade de Schwarzschild» e «O Coração do Coração» haverá gradualmente maior espaço para liberdade criativa. O facto de o autor se tentar ater às ideias científicas que apresenta não invalida uma leitura prazerosa, nestes relatos magistralmente concebidos que cruzam ficção e realidade, História e Ciência, génio e loucura; pois a mente humana, como qualquer sistema dinâmico, pode colapsar a qualquer momento, especialmente no caso dos físicos, matemáticos e astrónomos que por aqui desfilam, que de tanto escavar nas profundezas insondáveis do universo, em busca do «coração do coração», se sentem a resvalar para o abismo. O autor centra-se nalguns dos momentos mais definidores da história da ciência no século XX, em particular nos primórdios da Física Quântica, e recria a vida de alguns dos seus maiores pensadores, quase sempre incompreendidos entre os seus próprios pares.

Labatut contrapõe como algumas das maiores descobertas da Física foram depois usadas para o mal, como ocorre com o belo azul da Prússia, o primeiro pigmento sintético moderno, que serviu na pintura renascentista para pintar o manto da Virgem e as túnicas dos anjos, e está na base do cianeto, podendo ainda ser encontrado em alguns tijolos de Auschwitz.

A quarta narrativa, «Quando deixámos de entender o mundo», e que explica o título da tradução inglesa deste livro (When We Cease to Understand the World), é a mais extensa, com quase 100 páginas. Centrada em Schrödinger, e na sua teoria da nova mecânica de ondas, confluem nesta última narrativa personagens que fomos conhecendo anteriormente. É curioso notar que, apesar de a expressão que dá origem ao título Um Terrível Verdor surgir no fecho da primeira história, é depois de beber um estranho líquido verde que Schrödinger parece alucinar, ao ver línguas de fogo, e ter uma estranha premonição ao ver vultos carbonizados em torno de si, ao mesmo tempo que se desata na sua mente «uma tempestade de ideias» (p. 160): «A sua equação permanece a pedra angular da Física moderna, apesar de, em 100 anos, ninguém ter sido capaz de desvendar o mistério da função de onda.» (p. 167)