Opinião

Leitura da Semana: Os Seis Segredos da Inteligência, de Craig Adams

Paulo Serra

04-05-2021

Esta semana, Paulo Serra propõe a leitura de um livro que requer algum tempo e concentração, e que apresenta vários argumentos delicados relativamente às escolas ocidentais: perderam o rumo; focam-se em transmitir factos; o que ensinam não nos ajuda a pensar; muito do que aprendemos assenta na retórica, entre outros

Os Seis Segredos da Inteligência: o que a sua educação não conseguiu ensinar-lhe, de Craig Adams, agora publicado pela Temas e Debates, é um livro fundamental para qualquer pensador ou pedagogo. O autor parte da premissa controversa de que, quando se fala dos nossos tempos como a era da pós-verdade, o problema assenta sobretudo numa educação moderna que não nos ensina a pensar por nós próprios. Por conseguinte, a inteligência, ou a falta dela, isto é, a forma como pensamos, é o resultado daquilo que nos foi incutido, e tem como reflexo a aceitação passiva da desinformação, das fake news, dos debates polémicos e vazios nas redes sociais, em que são debitados argumentos tão ocos quanto veementes, das mentiras descaradas de um político nas suas declarações, ou das estatísticas apresentadas de forma tendenciosa (nestes últimos dois casos, o autor apresenta e desmonta exemplos concretos).

«Quando as pessoas se queixam de um mundo pós-verdade ou das notícias falsas, devíamos perguntar-lhes se acreditam que os políticos da Grécia Antiga – ou os de qualquer outra época ou local – eram mais verdadeiros do que os de hoje. Nunca houve uma idade do ouro da verdade e, por isso, não uma idade do ouro da pós-verdade. A solução para a manipulação do que vemos como verdade não está em chamar “mentirosos” aos nossos opositores. A solução é um pequeno vocabulário de conceitos fundamentais que nos dão a capacidade de perceber essa manipulação, de descrevê-la e de denunciá-la. Só as palavras podem fazer a ponte por cima do mal-entendido» (p. 269)

Craig Adams recua aos clássicos, e demonstra a importância de se recuperarem os três princípios fundadores da escola aristotélica – dedução, indução e analogia – e os três princípios da verdade – realidade, significado e evidência –, como instrumentos essenciais à nossa vida em sociedade, para a análise crítica de debates políticos, discussões filosóficas, ou qualquer outra argumentação em que possamos incorrer e onde muitas vezes somos atropelados sem conseguirmos sequer perceber em que se fundamenta o discurso do outro.

«A filosofia ensina-nos a desconstruir qualquer afirmação sobre o que é verdade pela compreensão da maneira de pensar – as convicções, o tipo de prova e o vocabulário especializado – que lhe deu origem.» (p. 262)

É uma leitura que requer algum tempo e concentração, e que apresenta vários argumentos delicados relativamente às escolas ocidentais: perderam o rumo; focam-se em transmitir factos; o que ensinam não nos ajuda a pensar; muito do que aprendemos assenta na retórica; a criatividade ou a inteligência inata ou o talento são mitos; coloca-se a tónica no desenvolvimento de espírito crítico, sem verdadeiramente o promover; a doutrinação religiosa cria estreiteza de espírito.

Craig Adams vive em Londres e especializou-se em Linguística e Línguas Modernas na Universidade de Oxford. Trabalhou como editor de não-ficção na Penguin, na Profile Books e na HarperCollins. Dececionado por ter de seguir um plano de estudos que não contemplava as ideias que considerava mais importantes, deixou o ensino para escrever este livro.