Opinião

Leitura da Semana: Morrem Mais de Mágoa, de Saul Bellow

Paulo Serra

25-03-2021

Esta semana, Paulo Serra propõe a leitura de um livro de Saul Bellow, relançado agora, em edição revista e com nova capa, 11 anos depois da sua primeira edição pela Quetzal Editores. Um dos grandes romances do autor, que recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1976

Morrem Mais de Mágoa, de Saul Bellow, é relançado agora, em edição revista e com nova capa, onze anos depois da sua primeira edição pela Quetzal Editores. Um dos grandes romances de Saul Bellow, Prémio Nobel da Literatura em 1976.

O narrador, Kenneth Trachtenberg, é um judeu especialista em literatura russa, enamorado de tal forma pelo tio que deixa Paris rumo à América. Para Kenneth, a sua relação mais duradoura não é a mulher com quem teve uma filha, nem o pai, face ao qual sente uma inferioridade fálica, mas o seu tio Benn Crader, um botânico famoso, que apesar da sua simplicidade e reserva intelectual passa a vida a viajar pelo mundo.

Uma narrativa inteligente e divertida em prosa torrentosa que nos agarra desde logo e que entre os Estados Unidos da América, Quioto e Etiópia, nos leva a uma reflexão sobre a natureza humana no limiar da modernidade, ao mesmo tempo que contrapõe a mentalidade de duas grandes potências e dois modos de pensar, a Rússia e a América. Kenneth escolheu aliás a América não só por ser aí que vive o tio, mas também por saber que é lá que está a acção e, por isso, quis aprender com o tio «o que era possível fazer neste mundo pós-histórico» (p. 357).

O escritor Saul Bellow

O verdadeiro conhecimento, todavia, parece residir no coração e nas decisões erradas que muitas vezes este toma por nós, pelo que quando o seu tio Benn o surpreende ao casar com Matilda Layamon, mulher bastante acima das suas posses, Kenneth chega gradualmente à conclusão que o casamento é um contrato do qual o amor deve estar isento: «toda a gente presta culto ao coração, claro, mas toda a gente está também mais familiarizada com a ausência do amor do que com a sua presença, e tão habituada à sensação de vazio que esta se torna «normal». Não se sente a falta de uma base de sentimentos até começarmos à procura do nosso eu e não encontrarmos, para ele, um apoio nos afectos». (p. 308)

Em torno destas duas figuras masculinas, intelectualmente brilhantes mas com vidas emocionais desastrosas, dos seus diálogos exuberantes e muitas vezes hilariantes, é tecida uma profunda reflexão da humanidade e do amor, pois afinal o amor é a seiva da vida: «o amor ocupava lugar importante para alguns cientistas, pessoas preparadas para lerem no livro da natureza, livro de infinito e mistério. Tal como Deus ganhou impulso quando Einstein o mencionou, também a taxa de crédito do amor, atualmente sempre em baixo, subiu quando o professor a defendeu.» (p. 129)