Opinião

Leitura da Semana: A Escola de Topeka, de Ben Lerner

Paulo Serra

16-03-2021

Esta semana, Paulo Serra convida a ler um livro de Ben Lerner que foi finalista do Prémio Pulitzer, vencedor do Los Angeles Times Book Prize, e considerado um dos 10 Melhores Livros do Ano pelo New York Times, pela revista Time e pelo Washington Post

A Escola de Topeka, de Ben Lerner, publicado pela Relógio d’Água no final do ano passado, com tradução de Alda Rodrigues. Considerado como um dos grandes autores contemporâneos, este livro foi finalista do Prémio Pulitzer, vencedor do Los Angeles Times Book Prize e considerado como um dos 10 Melhores Livros do Ano para o New York Times, a revista Time e o Washington Post. Sendo este o seu terceiro romance, Ben Lerner sofre no entanto, entre nós, da desvantagem da sua obra estar traduzida de forma dispersa e talvez por isso quase passar despercebida. O seu romance de estreia Leaving the Atocha Station continua por publicar entre nós. A Teorema publicou 10:04, o seu segundo romance, em 2015, e a Elsinore publicou o ensaio Ódio à Poesia (a poesia é curiosamente ominipresente na obra do autor, na sua prosa poética, bem como nas constantes citações implícitas de poemas).

Adam Gordon é o protagonista de A Escola de Topeka, à semelhança do que acontecia no seu primeiro livro, um escritor, cuja voz se imiscui no livro na primeira pessoa em alguns raros momentos. Ao fundir biografia com autoficção, o autor tem sido equiparado a Karl Ove Knausgaard e Rachel Cusk. Contudo a verdadeira proeza deste livro polifónico, dividido em várias partes, é a de retratar um Adam em diversos momentos da sua vida, maioritariamente na sua juventude, ao mesmo tempo que dá voz aos progenitores, ambos psicoterapeutas. Jane parece falar directamente com o leitor, sabendo que o filho vai reproduzir o seu discurso (p. 81-112), enquanto que no caso de Jonathan, o pai, a sua identidade parece fundir-se ou alternar com a do filho: «descemos, na primeira e terceira pessoa, juntos através das nuvens» (p. 184). Porque, afinal, «a criança é o pai do homem» (p. 265), uma belíssima imagem subtilmente latente no livro.

Ben Lerner é professor de Literatura Inglesa na Faculdade de Brooklyn
Foto John D. and Catherine T. MacArth / D.R.

Este é também um romance profundamente inteligente onde percepcionamos uma América em convulsão. A América é aliás «uma adolescência sem fim» (p. 225) em que o povo está lentamente a reaprender a falar. O estrondoso início em que Adam dá por si na casa-de-banho da casa errada, ao mesmo tempo que numa estranha experiência extracorpórea sente que está em todas as casas ao mesmo tempo – uma clara alusão à vida nos subúrbios americanos. Temos a metáfora das enxaquecas de Adam, cuja ameaça é aterradora e omnipresente, deixando-o em constante ansiedade, e distorcem a sua visão. Note-se a inaptidão social de Darren, excluído e ridicularizado pelos seus pares. Atente-se na carreira académica de Adam foi particularmente brilhante por ser estrela de debates académicos, em que a forma como o discurso é explanado é mais importante do que o conteúdo. E termina com uma manifestação contra as crianças separadas dos pais e colocadas em jaulas. Ou até na forma como se narra momentos da vida de Adam, numa linha ténue entre o clichê e o irrepetível poético.

Ben Lerner nasceu em Topeka, Kansas, nos E.U.A., em 1979. Publicou três livros de poesia. Foi finalista do National Book Award de Poesia e recebeu bolsas Fullbright, Guggenheim e MacArthur, entre outras distinções. É professor de Literatura Inglesa na Faculdade de Brooklyn.