Opinião

Como Aprendi a Compreender o Mundo, de Hans Rosling

Crónica

16-02-2021

Esta semana, Paulo Serra convida a ler o livro de memórias de Hans Rosling. Mundialmente conhecido como o génio sueco da estatística, fez parte da lista da Times das cem pessoas mais influentes do mundo e as suas conferências TED foram vistas mais de 35 milhões de vezes

«Enquanto Factfulness é sobre as razões pelas quais as pessoas consideram o desenvolvimento à escala global tão difícil de entender, este livro é sobre mim e sobre como cheguei a esse conhecimento.

Por outras palavras, esta é uma memória. Ao contrário de Factfulness, é muito escassa em números. Em vez disso, conto histórias sobre ter conhecido pessoas que me abriram os olhos e me fizeram recuar e pensar duas vezes.» (p. 10)

Como Aprendi a Compreender o Mundo, publicado pela Temas E Debates, é o livro de memórias de Hans Rosling, com a colaboração da jornalista sueca Fanny Härgestam. Poder contar a sua história de vida tornou-se uma prioridade quando, em 2016, Hans Rosling, mundialmente conhecido como o génio sueco da estatística, confirma ter um cancro do pâncreas; o autor faleceu em 2017. Deste seu testemunho sobressai uma imensa humildade (e até humor) perante os desafios que enfrentou.

Hans Rosling foi médico, investigador e professor de Saúde Internacional
Foto D.R.

Hans Rosling começa por contar a história da sua família e de como as mudanças ao longo das últimas gerações o ajudaram a perspectivar a evolução num mundo mais vasto, ao testemunhar como a vida dos seus avôs e pais, que eram pobres, mudou, conforme a Suécia, um estado social em expansão, melhorou as suas condições económicas e de saúde. Por conseguinte, nos anos 60 na Suécia, era comum crescer numa casa simples e o pai ser operário numa fábrica, mas «ser o primeiro da família a ir para a universidade era raro e especial» (p. 39). Hans estava ainda no primeiro ano de medicina quando conhece Eduardo Mondlane, um professor assistente moçambicano em Nova Iorque que deixou a carreira académica para passar a liderar a FRELIMO, a Frente de Libertação de Moçambique. No fim desse encontro, Mondlane faz Hans prometer que irá trabalhar em Moçambique como médico; dois anos depois Mondlane é assassinado, mas Hans cumprirá a sua promessa. Um dos aspectos mais curiosos desta memória do autor é a relação que estabelece com o Moçambique pós-independência (ele e a mulher aprenderam português ainda antes da viagem, como parte dos preparativos). Apesar de este livro cruzar várias experiências ao longo da vida do autor, com passagem por diversos locais como Cuba ou o combate na linha da frente à epidemia de ébola na África Ocidental, a sua experiência em Moçambique será determinante, constituindo praticamente metade destas memórias. Apesar de ter vivido apenas 2 anos em Nacala, esse período marca o resto da sua vida e inclusivamente a sua ingressão no campo da investigação.

Hans Rosling foi médico, investigador e professor de Saúde Internacional. Foi conselheiro da Organização Mundial de Saúde e da UNICEF e cofundador dos Médicos sem Fronteiras na Suécia e da Gapminder Foundation. Fez parte da lista da Times das cem pessoas mais influentes do mundo e as suas conferências TED foram vistas mais de 35 milhões de vezes. Hans morreu em 2017, tendo dedicado os seus últimos anos à escrita de Factfulness, publicado pela Temas e Debates em 2019.