Opinião

Leitura da Semana: A Quinta dos Animais, de George Orwell

Crónica

14-01-2021

Esta semana, Paulo Serra convida a ler uma obra de George Orwell, escrita em 1945, que revela como o comunismo na Rússia e na Europa de Leste assumiu cada vez mais a aparência de uma nova sociedade de classes

A Quinta dos Animais, de George Orwell, chegou-nos no final de 2020 numa nova edição da Antígona, com tradução revista pelo tradutor Paulo Faria, ainda antes das várias edições e traduções pelas mais variadas editoras que no início deste ano assinalaram a nova temporada literária – resultado da entrada em domínio público da obra de Orwell. Pode ainda ser considerada a mais completa edição portuguesa de Animal Farm, porque além de uma introdução, uma nota acerca do texto e uma nota do tradutor, assim como dois prefácios escritos pela mão do próprio Orwell.

Escrita em 1945, esta obra revela como o comunismo na Rússia e na Europa de Leste assumiu cada vez mais a aparência de uma nova sociedade de classes. Fábula satírica, que em tom ligeiro, muito subtil, e com momentos divertidos, tão cómicos quanto trágicos, nos conta, ao jeito de uma «história de encantar», como os animais da Quinta do Infantado se revoltam contra os humanos e depois se tornam na mais próspera unidade de produção rural dos arredores. Mas os porcos rapidamente submetem os outros animais a uma ditadura, explorando-os e levando-os a trabalhar mais e mais. E o que é sublime é a forma como esta escravatura decorre sempre na plena inconsciência de todos os animais, à parte do ajuizado burro que é quem mais enxerga.

Esta edição mantém o compromisso assumido na de 2008, explica o tradutor, e continua a renegar o título panfletário O Triunfo dos Porcos, honrando o desejo de Orwell de contar, a crianças e adultos, «uma história de encantar». E é precisamente como uma história de encantar que o livro pode ser lido, apesar da leitura política subjacente, até porque «os animais da quinta tinham o hábito um pouco palerma de se tratar uns aos outros por “Camarada”» (p. 145). Ao contrário de outras traduções saídas este mês, o tradutor assumiu a ousada e sábia decisão de traduzir para português todos os nomes próprios das personagens (Napoleão, Trovão,…) e lugares (Benquerença), o que só enriquece o texto, tornando a sua leitura intemporal.