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Óbito/João Cutileiro: A Nova Escultura não se concebe sem o seu impulso - Ar.Co

05-01-2021

Para o Ar.Co, o escultor, que morreu hoje de madrugada, “foi uma referência num país que não as tinha e que avidamente as procurava”

Ao longo da década de 1960, o escultor fez diversas exposições em Lisboa e no Porto
Foto D.R.

O Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual lamentou a morte do escultor João Cutileiro, hoje, aos 83 anos, recordando o I Simpósio Internacional de Escultura em Pedra, que com ele organizou em 1981.

“Na história da arte portuguesa dessa década [1981], a chamada Nova Escultura não se concebe sem o impulso trazido pelas inovações metodológicas e técnicas introduzidas pelo João. Muitos, quer os 'pró' quer os contra, lhe ficam a dever”, lê-se numa publicação partilhada hoje à tarde, na página oficial do Ar.Co, na rede social Facebook.

Para o Ar.Co, o escultor, que morreu hoje de madrugada, “foi uma referência num país que não as tinha e que avidamente as procurava” e “um amigo também, pouco presente e ao longe, como mandava o seu (sarcástico e saudoso) humor”.

O Ar.Co recorda que, em 1979, João Cutileiro orientou naquele centro de artes “um pioneiro curso intensivo de escultura em pedra, introduzindo o trabalho direto do material pelo próprio autor, com recurso a ferramentas elétricas”.

Foi na sequência desse curso, que surgiu “o primeiro e mais importante Simpósio Internacional de Escultura em Pedra”, que se realizou em 1981 em Évora.

O I Simpósio Internacional de Escultura em Pedra reuniu criadores como Sergi Aguilar, Andrea Cascella, Minoru Niizuma, Syoho Kitagawa e Pierre Szekely, e um grupo de jovens escultores portugueses em que se destacavam Rui Anahory, Brígida Arez, José Pedro Croft, Amaral da Cunha, Pedro Fazenda, Luísa Periennes, Pedro Ramos, Manuel Rosa e António Campos Rosado.

Nascido a 26 de junho de 1937, em Lisboa, numa família antifascista, da média burguesia, João Pires Cutileiro viajou constantemente durante a infância e adolescência, devido à profissão do pai, José Cutileiro, médico da Organização Mundial de Saúde.

De 1946 a 1950, frequentou os ateliês de António Pedro, Jorge Barradas e António Duarte, tendo feito a sua primeira exposição individual (“Tentativas Plásticas”) em 1951, com 14 anos, em Reguengos de Monsaraz, onde apresentou esculturas, pinturas, aguarelas e cerâmicas.

Foi neste período que Cutileiro se iniciou no tratamento da pedra, pois o seu trabalho no atelier de António Duarte era o de ampliar os modelos do mestre canteiro, passá-los a gesso, e traduzir esses gessos para o mármore.

Durante a adolescência, numa viagem com o pai, passou por Florença e viu as esculturas de Miguel Ângelo, momento decisivo que recordou por diversas vezes, pela revelação que teve e pelo grande impacto na sua vida, ao aumentar a certeza de que queria fixar-se na escultura.

O início do uso de máquinas elétricas, no corte da pedra – que viria a mostrar-se decisivo para problemas futuros do foro respiratório -, remonta a 1966. A técnica permitiu-lhe dedicar-se em particular ao mármore, dando forma, além das figuras, a paisagens, caixas, flores e árvores.

Ao longo da década de 1960, o escultor fez diversas exposições em Lisboa e no Porto.

Regressou a Portugal em 1970, fixando-se primeiro em Lagos, no Algarve, onde permaneceu por mais quinze anos, e depois em Évora.

No atelier da cidade algarvia, empenhou-se na construção das primeiras figuras bífidas.

Daí saiu a polémica obra "D. Sebastião", erguida na cidade de Lagos, na praça Gil Eanes, dividindo as opiniões, desde as críticas ferozes ao seu "capacete integral", aos rasgados elogios pela nova sintaxe impressa na escultura portuguesa.

Dos vários temas desenvolvidos por Cutileiro, o dos corpos femininos foi um dos mais marcantes.

Em 1990, a Fundação Calouste Gulbenkian dedicou-lhe uma exposição antológica, e, desde então, sucederam-se várias mostras individuais, em Portugal e no estrangeiro, desde Bruxelas, Luxemburgo, Almansil, Évora, Lisboa, Guimarães e Lagos.

Cutileiro foi condecorado com a Ordem de Sant’Iago da Espada, Grau de Oficial, em agosto de 1983, e recebeu o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Évora e pela Universidade Nova de Lisboa, este último, concedido em 2017.

Em 2018, quando João Cutileiro recebeu a Medalha de Mérito Cultural, numa cerimónia no Museu de Évora, foi formalizado o anterior compromisso de doação do espólio do escultor ao Estado português, em 2016, e assinado um protocolo que envolveu o Ministério da Cultura, o município e a Universidade de Évora.

João Cutileiro era irmão do diplomata e escritor José Cutileiro, que morreu em maio de 2020, aos 86 anos.

O velório do escultor João Cutileiro vai decorrer na quarta-feira à tarde, na Igreja do Salvador, em Évora, revelou à agência Lusa a diretora Regional de Cultura do Alentejo, Ana Paula Amendoeira.