Anastácia Pavlovich agarra um copo de cartão, o chá de frutos vermelhos que bebe também serve para aquecer as mãos. O colete verde florescente tem estampada a frase “eu posso ajudar-te”. Está escrita em inglês, ucraniano, russo e romeno.
Anastácia tem 36 anos e é professora de inglês. Agora, desde que a guerra começou e atravessou a fronteira da Roménia para a Ucrânia, também é tradutora e voluntária para os que fugiram da guerra. Como ela fugiu.
“Senti alguma culpa por abandonar a minha casa, por não conseguir ser útil lá e não estar a ajudar o meu país. Ser voluntária aqui pareceu-me uma boa forma de ser útil para os outros. Pareceu-me que seria bom para mim”, diz ao Expresso em frente ao posto fronteiriço de Sirat, na Roménia, onde há mais de duas semanas entrou no país e onde, desde então, está diariamente a dar informação e a encaminhar quem quer ser ajudado.
“Gosto de pensar e lembrar-me da pessoa que sou, onde estou e o que faço.”
No dia em que sentiu que era demasiado perigoso continuar a viver na Ucrânia, Anastácia combinou com os amigos sair do país – o marido teria sempre que ficar para lutar, todos os ucranianos entre os 18 e 60 anos estão proibidos de sair.
Combinaram às 22h, encontraram-se a poucos quilómetros da fronteira. Estava na hora de passar. “Eles acabaram todos por desistir. Disseram-me que não iam a lado nenhum e mudaram de ideias.”
Anastácia ficou sozinha com o filho bebé. “Quis vir na mesma, não estou assim tão longe de casa e achei que fazia sentido atravessar e ver como seria. Se não desse em nada, voltava para trás e ia para casa.”
Cruzada a fronteira, não conhecia ninguém na Roménia; assim que chegou à cidade de Siret, um voluntário aproximou-se dela e ofereceu-lhe casa. O mesmo voluntário lembrou-lhe que saber inglês, ucraniano e russo poderia ser uma incrível mais-valia no acolhimento.
Anastácia só sabia que não sabia o que iria fazer a seguir.
FICAR NO LUGAR
Ao contrário da maioria das pessoas que atravessa a fronteira para chegar a território romeno, Anastácia decidiu ficar com o filho bebé.
(Em Siret, há até uma creche improvisada onde a criança fica enquanto a mãe se propõe a auxiliar quem chega).
Ser refugiada não é novo para ela, e é a segunda vez que escapa aos ímpetos russos: a primeira foi em 2014, quando saiu da cidade de Donetsk, durante a Crise da Crimeia.
“Pelo menos agora já toda a gente sabe o que está a acontecer. Acredito que antes as pessoas estavam confusas, não sabiam quem tinha razão, quem estava certo ou errado. As pessoas preferiram deixar as coisas passarem [em 2014] e ver no que dava. E foi o que foi, nada se resolveu e hoje estamos aqui. Espero que agora ninguém chame a isto crise ou conflito. O que estamos a ver é ‘A Guerra’”.
Anastácia acredita que o que acontece do lado de lá da fronteira vai acabar rapidamente. Mesmo não sabendo dos avanços e recuos da guerra, mesmo que não perceba nada de estratégias, armas e exércitos, Anastácia quer acreditar que tudo vai acabar dentro de pouco tempo.
Há um par de dias falou com o marido ao telefone, disseram que estavam orgulhosos um do outro e que se voltavam a encontrar-se quando terminassem as suas missões. Ele lá na guerra, ela e o filho bebé cá, a amparar quem foge.
Em Siret, de onde não quer sair.
Já lhe ofereceram alojamento nos EUA, Alemanha e Itália. “Emocionalmente sinto-me em casa. Estou aqui, mas a minha casa é além a uns quantos quilómetros”, comenta enquanto aponta com o braço para lá da fronteira. “Na verdade não mudei assim tanto֨.”
Mas o que muda entre cá e lá é quase tudo.
“QUERO VOLTAR A VER A MINHA MÃE VIVA E REZO POR ESSE DIA”
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– Tanya anda cá!
O coordenador do Fight fo Freedom, uma das organizações não-governamentais que está a prestar apoio aos refugiados ucranianos, levanta-se da cadeira para procurar Tanya. A voluntária não aparece.
A tenda está atolada de gente que ajuda e de quem quer ser ajudado. Lá fora a sensação térmica aproxima-se dos -8 graus, ali dentro os aquecedores ajudam a esquecer o frio.
– Tanya onde estás? Tanya?
Uma das mulheres que arruma enlatados em caixa volta-se para trás. “Ah, estás aí! Vem cá que és a melhor pessoa que aqui está para explicar o que está a acontecer.”
O coordenador desaparece e para dar lugar a Tanya Parfeniuk, refugiada que virou voluntária. “O meu trabalho é um bocadinho de tudo isto”, diz a jovem de 23 anos, olhando em volta. Arrumar, embalar, empacotar, servir um prato de sopa quente, fazer chá, dar informações, brincar com miúdos ou conversar com adultos.
“Quero ajudar as minhas pessoas, quero ajudar os ucranianos e esta é a forma que tenho de o fazer.” Entrou na Roménia, pela cidade de Siret, há pouco mais de uma semana. Veio com duas irmãs, um irmão e alguns amigos. Teve a “sorte de só esperar dez horas” para percorrer os últimos dez quilómetros em solo ucraniano. “Há quem fique bem mais, há pessoas que dizem ter estado dois ou três dias em pé ao frio. Nós estivemos dentro do carro.”
Viveu toda a vida nos arredores de Kiev, onde trabalhava como costureira e ama. Por agora, vai ficando em casa de uns amigos. Não sabe por quanto tempo.
“Tento falar todos os dias com os meus pais”, conta. O pai não tem idade para sair da Ucrânia e a mãe ficou porque não o quis deixar sozinho. Outros dois irmãos e uma irmã também. “Quando ligo, dizem-me sempre que está tudo bem, mas eu sei que não está. Sobretudo para os meus pais não é fácil deixar o país. As pessoas mais velhas querem todas ficar.” E Tanya acredita que será ela a regressar à Ucrânia. “Quero voltar a ver a minha mãe viva e rezo todos os dias pelo dia em que isso vá acontecer.”
- Texto: Expresso, jornal parceiro do POSTAL